sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Racismo, por Claudio Domingos Fernandes

0,1% mais rico da população se apropria de 68% do crescimento da renda nacional. E a alta parcela da renda dos mais ricos, que é isenta de Imposto de Renda, nos deixa ainda mais distantes de países com uma distribuição mais igualitária. ( http://www1.folha.uol.com.br/coluna...)

Embora, entre nós, o racismo atinja com maior evidência as pessoas pretas, eu não entendo o racismo como um embate de pessoas brancas contra pessoas pretas. O racismo é uma teoria política em defesa da expropriação econômica, política, cultural que condena cerca de 80% das pessoas a viverem em condições de pobreza ou extrema pobreza. A pobreza é uma produção econômica, o racismo é sua justificação. Concepções raciais existem desde a primeira injustiça social: Quando alguém por sua força e ou engenho, se declarou senhor e os demais a ele se submeteram. Sempre se precisou justificar a dissimetria entre a opulência dos que governam e a extrema carência dos que se submetem ao governo. Sempre se precisou explicar porque um sujeito come três pães, e uma comunidade inteira apenas migalhas. De tal modo, imiscuído com doutrinas religiosas e filosóficas, o racismo sempre se fez presente como justificativa possível, não para as diferenças entre os homens, mas para as desigualdades sociais. E ao fim do século XIX, “concederam ao pensamento racista dignidade e importância, como se ele fosse uma das maiores contribuições espirituais do mundo ocidental” (ARENDT, H. A origem do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras. 2002, pp. 189). 

Hoje, o racismo encontra guarita segura nas teorias meritocráticas, que defendem com indisfarçável arrogância o direito, por mérito (quase divino) dos “melhores” postos na sociedade, aos grupos sociais que detêm o poder econômico e político e determinam os critérios de acesso e produção do conhecimento, como os critérios de ascensão social.

Racismo é uma justificativa de grupos que se consideram onipotentes, que se autorizam expropriar e explorar outros grupos sociais. Como ação política promove a exclusão econômica e social e nega os princípios da igualdade entre os homens, atacando os direitos humanos e submetendo três quartos da população humana a viverem em condições de privação e miserabilidade. 

Negra não é a condição de desprestigio econômico, político, cultural e social apenas de homens e mulheres de pele escura – por questões históricas ainda não superadas, não desconsideramos que entre nós esta é a realidade mais pungente, e que quanto mais escura a pele da pessoa mais ela carrega os efeitos imorais da expropriação e exploração dos opulentos senhores da economia, da política, da produção de saberes –, negra é a realidade social em que se encontram todos aqueles que por sua condição econômica, social e política são, antes de tudo humilhados, desvalorizados como pessoas, destituídos de seus direitos fundamentais: educação, saúde, moradia, trabalho, lazer, segurança, sustentabilidade. E não obstante estas carências de ordem política, são marginalizadas, criminalizadas, execradas, executadas. 

Negra não pode ser um termo que encerra um grupo humano e o contrapõem a outro grupo, pretensamente hegemônico. Negra é a condição econômica, social, cultural e política da imensa maioria dos homens e mulheres que ainda não perceberam que certos acirramentos ideológicos, certos conflitos políticos, certas guerras, são estratégias políticas, apeadas em justificativas raciais.
O acirrado debate sobre falsas diferenças entre homens e mulheres, entre brancos e pretos, escondem-nos as injustiças sociais, nos dividem em bandeiras diversas. E este acirramento e essa divisão de nossos interesses: que haja uma melhor distribuição dos recursos econômicos, da participação política, do acesso à apreensão dos bens culturais universais, promovendo igualdade e justiça social, interessa e é motivado pelos racistas de fato: os que defendem o status quo da economia, da política, da produção de saberes como mérito e não como o que é de fato: expropriação. 

Se um meu vizinho, ou mesmo um estranho, num debate de coisas rasas ou mesmo graves, no calor das discussões me injuria devido a cor de minha pele, ao meu sexo ou minha origem, eu não o considero racista, embora a injuria seja. Ela esta colocada nele e talvez ele não se de conta disso. Dependendo do lugar e da hora, o sujeito que me chama de “negro safado”, ou “preto dos infernos” eu apenas o olho com comiseração e lamento sua estultícia. Mas se o sujeito é conivente com as doutrinas políticas, econômicas, culturais que separam os humanos e os classificam, se ele empresta seu pensamento às obscenas escusas que mascaram as desigualdades sociais e suas injustiças, mesmo num instante de inconsciência, o que expressa é uma afronta, uma ignomínia a ser combatida.

A injúria de meu vizinho não é racismo. É uma incompreensão de si mesmo. Já as teorias neoliberais de qualquer ordem são racistas e servem a justificar um sistema expropriador e excludente.

Em toda riqueza há o sangue, o sofrimento, a submissão de centenas de seres humanos. É preciso uma justificativa para a assimetria entre os que se empanturram ao esbanjamento e os que colhem sua sobrevivência em lixões. DEUS, RAÇA, MÉRITO, sempre serviram a tamanha infâmia.

Claudio Domingos Fernandes

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Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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