segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Quando visitei aldeias indígenas, por Geraldo Monteiro Neto

Terra indígena Jaraguá fica na divisa de São Paulo com Osasco (Foto: TV Globo/Reprodução)
Geraldo Monteiro Neto

Raras são as experiências na vida que nos marcam de maneira tão profunda, que tornam possível dividir nossa história entre antes e depois. As ocasiões em que visitei aldeias indígenas da etnia Mbya-Guarani estão nessa categoria.

Em 2015, a Aldeia Tekoá Pyau, localizada no município de São Paulo, próxima ao Pico do Jaraguá, realizou um evento aberto à comunidade denominado Aldeia Fala. Tive notícia do evento por meio das redes sociais, e ao entrar em contato com a aldeia, fui informado que mesmo moradores de outros municípios poderiam participar. Assim, parti acompanhado de algumas colegas professoras rumo à aldeia. Trabalhávamos, à época, na Equipe de Orientação Pedagógica da Secretaria de Educação de Mogi das Cruzes/SP, e como estávamos desenvolvendo cursos voltados para as questões etnicorraciais, a pesquisa sobre culturas indígenas parecia totalmente pertinente.

A Aldeia Tekoá Pyau é pequena, mas tem cerca de 700 moradores. Os Guarani ali vivem em casas de madeira, muito simples, com chão de terra batida. Diferente daquilo que a maior parte da população, por desinformação, acredita, eles trajam roupas, muito similares às nossas, fruto de doações em grande parte. Têm acesso a alguns itens de tecnologia, como rádios, televisores e telefones, mas de maneira geral possuem muito poucos aparelhos. A maior parte da população é bilíngue. Utilizam o português para se comunicar com os não-indígenas, chamados de juruá, mas entre os seus, conversam na língua Guarani. Há na aldeia uma escola de Educação Infantil, mantida pela Prefeitura de São Paulo. Ali todos os professores são Guarani; as crianças são alfabetizadas em sua língua tradicional e o currículo segue um programa específico. Tive a oportunidade de participar de uma oficina de confecção de colares com um dos professores, e logo ficou claro que a confecção destes adornos, que poderíamos achar uma tarefa simples, requer muitíssima prática, paciência e perfeccionismo. A elaboração dos colares requer não apenas coordenação motora, mas conhecimento matemático, disciplina e dedicação.

Tive ainda a oportunidade de participar de uma roda de conversa com o cacique da aldeia, dentro da Opy, a Casa de Reza. Toda aldeia Guarani possui um espaço como este; além das celebrações e práticas religiosas, é também um local de reunião e discussão. Ficou claro para mim o quanto nós, os juruá, não conhecemos nem as tradições, nem a luta dos povos indígenas. E que, se tivéssemos a humildade de ouvir, aprenderíamos muito.

Um dos exemplos: a amorosidade das crianças Guarani é comovente. Sem jamais terem me visto, abraçavam-me como a um ente querido. Queriam que eu as carregasse no colo. E logo notei que este é um costume entre eles. Durante todo o tempo em que estive lá, vi dezenas de crianças de idades diferentes interagindo umas com as outras, e mais importante, cuidando umas das outras. Não há insultos, empurrões, brigas. Os mais velhos sempre zelam pelos mais novos. Este, eu descobriria posteriormente, é um dos mais caros traços de sua cultura: o respeito pelos mais velhos, coisa que nossa cultura parece estar esquecendo dia a dia.

Eu retornaria ainda à aldeia Tekoá Pyau em 2017. Após saber que os moradores da aldeia não tinham agasalhos suficientes para enfrentar o inverno que se aproximava, organizei uma arrecadação na escola onde trabalho e consegui uma quantidade surpreendente de roupas, doadas pelas crianças. Também sugeri a ideia da arrecadação aos organizadores de uma festival de Heavy Metal em São Paulo, que naquele mês reuniria apenas bandas cuja obra se relaciona à cultura indígena, e fiquei feliz em ver quantos agasalhos os headbangers doaram para o povo da aldeia.

Mais recentemente, causou-me revolta saber de uma decisão judicial que pretende reduzir ainda mais o território indígena na região do Pico do Jaraguá, que abriga ainda outras aldeias. Os representantes Guarani têm lutado na justiça pelo reconhecimento do seu direito ancestral àquela região, e têm obtido algumas vitórias importantes, à custa de muita mobilização. É pena que a maior parte da sociedade brasileira não tenha notícia dessas lutas.

Em 2016, ministrei um curso para professores da Rede Municipal de Mogi das Cruzes, no qual falamos sobre culturas indígenas. Como parte do curso, propusemos uma visita à Aldeia Rio Silveiras, localizada em Bertioga/SP. Esta seria minha segunda visita a uma aldeia indígena.

Logo ao chegar, fomos recebidos pelo simpático pajé. Os pajés são líderes espirituais entre os Guarani, e também detêm o conhecimento sobre sua medicina tradicional. Era uma manhã fria e indaguei se o frio incomodava os moradores. A resposta do pajé, ao mesmo tempo de uma simplicidade e de uma profundidade tremendas, deixou-me sem palavras: “Para nós, tudo que Deus manda é bom. Se faz calor, se faz frio, se chove. A gente só agradece.”. De fato, poucas coisas podem ser mais tolas do que praguejar contra o clima...

Em seguida, fomos convidados a participar de uma reunião que ocorria na Casa de Reza. Como todos falavam em Guarani, nada pude compreender. Entretanto, observei como funcionam as assembleias entre eles. A reunião é aberta a todos os moradores, e todos, jovens e idosos, têm o direito de pedir a palavra e se manifestar. Os participantes ouvem atentamente tudo o que é dito, e ninguém interrompe ninguém. Até crianças entram e saem da Opy conforme sua vontade.

Após a assembleia, conversei com o Sr. Mariano, que havia sido a pessoa com quem eu fizera contato telefônico para agendar a visita. Mariano foi o cacique na Rio Silveiras por muito tempo, mas naquele momento não ocupava mais essa função. Perguntei quanto tempo dura o “mandato” de um cacique. Segundo ele, o líder pode ocupar a posição pelo tempo que quiser, mas se o grupo avaliar que sua liderança não está sendo satisfatória, há uma conversa e um novo cacique é escolhido. O cacique, porém, não tem poder de impor qualquer política aos moradores da aldeia. Ele atua como um representante, mas toda e qualquer decisão deve ser tomada em conjunto com os moradores, de maneira consensual.

É irônico que estejamos há tantos séculos perseguindo o conceito de democracia, e que as limitações do nosso modelo representativo estejam se tornando tão evidentes, ao mesmo tempo em que povos que a conhecem e praticam sejam ignorados, e mesmo dizimados, pela dita “civilização”.

Notei que dentro da Opy, além de instrumentos musicais e objetos religiosos, havia a fotografia de um idoso. Mariano informou tratar-se de um antigo pajé, que havia falecido há pouco tempo. Quando perguntei sobre esse apreço pelos mais velhos que havia observado entre os Guarani, recebi mais uma lição de sabedoria: “Eles são os nossos livros.”

Faz sentido. Numa sociedade que permaneceu sem escrita por tanto tempo, a transmissão das tradições se dá por via oral. Naturalmente, são os mais velhos os conhecedores das antigas tradições. Chega a ser surpreendente a tenacidade com que os povos indígenas conseguiram preservar tanto conhecimento, considerando a enorme pressão à sua volta para que abandonem seu modo de vida.

Na Aldeia Rio Silveiras, não se observam moradores de rua ou desabrigados de qualquer tipo. Todo o território da aldeia está disponível para que os moradores construam suas casas, o que fazem coletivamente, com material retirado da floresta ao redor. Não há regiões mais valorizadas do que outras. Tampouco há pessoas que acumulem mais riqueza do que outras. A produção de alimentos, por exemplo, permite que todos participem e partilhem do fruto do trabalho coletivo. Não cheguei a visitar as plantações, mas soube que eles cultivam diversos gêneros.

De maneira geral, entre os povos indígenas, inexiste o conceito de Arte como confecção de objetos para observação, como fazemos com pinturas, desenhos e esculturas. A técnica para a produção de objetos belos existe, e é extremamente valorizada – mas os objetos são utensílios de uso ritual ou cotidiano, como cestos, colares, arcos e flechas, potes etc. Entre os Guarani, verifiquei a confecção de belíssimos cestos de palha trançada, decorados com motivos gráficos abstratos que são particulares à sua cultura (comparando-os com cestos de outras etnias, um olhar atento rapidamente notará as diferenças). Os Guarani encontram, na comercialização desses objetos, uma das suas poucas fontes de renda. Encantado com a beleza desses artefatos, passei a adquiri-los sempre que possível.

Além desses utensílios, os Guarani confeccionam ainda belíssimos adereços com penas de pássaros, como cocares. Mariano explicou que a legislação brasileira permite que os indígenas empreguem plumas de aves nativas na confecção desses objetos, mas não a sua comercialização. Por isso, os itens disponíveis para compra são feitos com penas de galinha coloridas artificialmente, sem recorrer à fauna local. Mas a técnica empregada na sua confecção é a mesma.

Conheci ainda a filha do pajé, que morava há pouco tempo na sua nova casa recém-construída. Simpática, a jovem usava uma pintura corporal feita com carvão e suco de jenipapo. Ela se ofereceu para fazer alguns desenhos na pele dos visitantes, mas nos alertou para o fato de que a pintura feita com jenipapo se fixa na pele por vários dias – por isso, optamos por fazê-la em locais menos visíveis, como os braços, e não no rosto como ela usava. Também aqui pude notar a delicadeza da técnica Guarani na produção desses grafismos, que obedecem padrões geométricos muito bonitos.

Após essas incursões, passei a me dedicar ao estudo das culturas indígenas, com especial atenção ao povo Guarani. Descobri, por exemplo, um CD com gravações de canções Guarani entoadas por crianças (Nandereko Arandu – Memória Viva Guarani). Cheguei a aprender algumas palavras de seu idioma, como nomes de instrumentos musicais. Pode parecer surpreendente, mas muitas aldeias, como a Tekoá Pyau e a Rio Silveiras, possuem páginas nas redes sociais, onde divulgam seus eventos, lutas e conquistas. A Rádio Yandê, a primeira web radio do Brasil, traz diversas notícias sobre as lutas dos povos indígenas, além de eventos, palestras, encontros e muita música. Esses ambientes virtuais se tornaram familiares para mim.

Ultimamente, venho fazendo um curso de pós-graduação em História e Cultura Indígena e Afro-Brasileira, e tenho podido aprofundar meu conhecimento sobre os povos originários. Tenho feito tudo o que está ao meu alcance para compartilhar o que aprendo com as crianças e jovens que são hoje meus alunos. Talvez, se mais pessoas aprenderem sobre as culturas indígenas, possamos mudar o injusto panorama atual e passar a aprender com esta sabedoria ancestral, que tanta humanidade e respeito à natureza tem a nos ensinar.

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Possui pós-graduação em Docência da Língua Inglesa pelo Complexo Educacional FMU e Licenciatura em Educação Artística com Habilitação em Música pela UNESP. É professor de Artes no Ensino Fundamental I na Rede de Ensino de Mogi das Cruzes; professor de História da Arte no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio no Colégio Santa Mônica e professor de Língua Inglesa, Canto Coral e Teatro na Cultura Inglesa de Mogi das Cruzes. É também cantor, compositor, guitarrista e ilustrador ocasional. Facebook: Neto Monteiro

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