segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Por que celebrar Zumbi de Palmares?, por Claudio Domingos Fernandes


Palmares é o caso exemplar do enfrentamento inter-racial. Ali, negros fugidos dos engenhos de açúcar ou de vilas organizaram-se para si mesmos, na forma de uma economia solidária e uma sociedade igualitária. (Darcy Ribeiro. O Povo brasileiro, A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 1997, pp. 173)
 ... Olha só aquele clube que da hora,/ Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora/ .../ Ele apenas sonha através do muro... (Racionais MC´s: Fim de Semana no Parque)


Ainda há quem coloque a questão sobre o porquê celebrar Zumbi de Palmares. Alguns veem em tal celebração uma afronta, outros revanchismo. Há quem desdenhe e há quem pense em vitimismo. O certo é que Zumbi, Palmares, ainda assombra nossa sociedade patriarcal e escravista. A titulo de pontuar o porque das comemorações de Zumbi de Palmares e da Semana da Consciência Negra, o presente texto acompanha a obra de Lilia M. Scwarcz e Heloisa M. Starling, Brasil Uma Biografia. Não o seguiremos, porém, de forma literal. Procuramos explicitar, algumas vezes, o não dito nos relatos das autoras. 

Então, por que celebrar Zumbi de Palmares?

Porque em 300 anos milhões de homens e mulheres não viajaram espontaneamente de suas terras com o fito de povoarem outras terras pelo mundo. Não! Foram brutalmente extraídos de seu solo, foram, como animais, encerrados em porões de navios e traficados como mercadoria-moeda num negócio que subsidiou o nascente capitalismo. E o Brasil recebeu 40% dos africanos impiedosamente arrancados de suas terras. Cerca de 4 milhões de homens e mulheres aqui aportaram para servirem de mercadoria e trabalharem em regime de escravidão.

Esses homens e mulheres, os que resistiram a longa travessia marítima, aqui foram marcados pela água do batismo e pelo ferro em brasa. Tiveram elos culturais e familiares rompidos. Foram extorquidos do próprio corpo, tornado propriedade coisa-moeda de Senhores de engenho. E sob açoite, sevicia e castigos de toda sorte, produziram as riquezas de seus senhores e serviram como instrumento de prazer e gozo sádicos desses mesmos senhores. Muitos morreram de exaustão, subnutrição, sob tortura, suicídio. É em memória deste povo vilipendiado e impiedosamente massacrado que se celebra Zumbi de Palmares.

Porque a escravidão enraizou-se de tal forma que deixou de ser privilégio de grandes senhores de engenho. “Padres, militares, funcionários públicos, artesãos, taberneiros, comerciantes, pequenos lavradores, pobres e remediados e até libertos possuíam escravos...” A escravidão “moldou condutas, definiu desigualdades sociais, fez de raça e cor marcadores de diferenças fundamentais, ordenou etiquetas de mando e obediência” e criou uma sociedade condicionada pelo paternalismo e por um patriarcalismo obtuso, mesquinho, impiedoso. Nossa elite é uma horda de sádicos... 

Quando não mais serviam, pois o sistema econômico passou a exigir nova forma de produção e de mão de obra, homens, mulheres, crianças, idosos, doentes foram libertados e abandonados à própria sorte sem instrução, sem direito à terra, sem direitos políticos, sem assistência econômica, e carregados de injurias (“coisa de preto”, por exemplo, como forma de humilhação). E, após cem anos de sua liberação, “ainda são pouco numerosos os seguimentos da “população de cor” que conseguem se integrar, efetivamente, na sociedade competitiva e nas classes sociais que a compõem”. E “a ideia da ‘democracia racial’ acabou sendo expediente inicial (para não se enfrentarem os problemas decorrentes da destituição do escravo e da espoliação final de que foi vítima o antigo agente de trabalho) e uma forma de acomodação a uma dura realidade (que se mostrou com as “populações de cor” nas cidades em que elas se concentravam, vivendo na piores condições de desemprego disfarçado, miséria sistemática e desorganização social permanente)” (Florestan Fernandes. O Negro no mundo dos Brancos. São Paulo: Global, 2006, p. 46). Ainda, “quanto mais escura a pele do brasileiro, da brasileira, mais se sente o fosso de nossas desigualdades e as marcas ingentes da violência institucional e do sadismo de determinados segmentos sociais.

Porque há um extermínio sistemático de nossa gente nas periferias e porque se persegue indisfarçadamente adeptos das religiões de matriz africana, se procura impedir nosso acesso à universidade pública. Por tudo isso, celebramos Zumbi de Palmares.

Zumbi de Palmares não é um herói; é um símbolo de resistência, de luta, de denuncia contra o que persiste de preconceituoso e odioso contra os homens e mulheres de pele escura e contra as manifestações religiosas e culturais de matriz africana.

Celebrar Zumbi, comemorar a Semana de Consciência Negra é recordar que, não obstante todas as adversidades, todo desrespeito a sua dignidade, todo sofrimento sofrido, os extraviados de suas terras e traficados como mercadoria não se renderam à barbárie e ao sadismo de seus senhores. E fizeram mais do que apenas sobreviver, organizaram-se, lutaram e estabeleceram um espaço em que se pode sonhar com liberdade e resgate de sua identidade. Palmares foi uma brecha de esperança aberta no coração do sofrimento imposto pelo sistema escravista. “Para fugir da condição de “peça” [coisa-moeda-objeto sádico], os escravizados procuraram nas brechas do sistema espaços para recriar suas culturas, [cultivar] desejos, sonhar com a liberdade e com a reação”, restabelecer seus laços com seus orixás e ancestrais, dar-se a dignidade roubada. “Jamais abriram mão de serem agentes e senhores de suas vidas... [E] a resistência escrava deu origem a mocambos ou quilombos...” Celebrar Zumbi de Palmares é reviver está brecha e anunciar a esperança de construirmos uma nação livre do preconceito e das injurias contra os homens e mulheres por causa da cor de suas peles.

Palmares foi o maior e mais persistente quilombo e significou uma alternativa concreta à ordem escravista... “Tornou-se um problema real e bastante amedrontador para o [escravismo colonial e para as autoridades, e precisava ser combatido...” A queda de Palmares e a execução de seu maior líder, Zumbi, serviram às autoridades coloniais de ontem e serve aos autoritários de hoje como modelo para a repressão e o sujeitamento das camadas mais pobres de nossa nação. A degola de Zumbi ilustra o que ocorre aos que reagem à sádica exploração não apenas econômica, da grande massa de brasileiros e brasileiras.

Aos que negam ao trabalhador condições dignas de trabalho, direitos constitucionais, liberdade de reivindicar respeito às suas crenças e tradições culturais, reconhecimento econômico e favorecimento de acesso à formação de qualidade, celebrar Zumbi não é incompreensível: é uma afronta; uma ameaça.

Para os milhares de homens e mulheres, ainda que não saibam – ainda hoje extorquidos de seus corpos, de seus sonhos, de seus desejos, espezinhados, ridicularizados, humilhados, por uma elite econômica, política e religiosa, patriarcal, mesquinha, tosca –, Palmares, e seu líder maior Zumbi, se converteram em luta por inclusão social, conquista de direito, resgate de identidade cultural de respeito a seus cultos, desejo de uma sociedade menos desigual.

Enquanto houver injustiça, enquanto os homens e mulheres de nossas classes populares se sentirem ameaçados, intimidados, desrespeitados por sua cor de pele e por suas tradições religiosas, por suas manifestações culturais, que viva Zumbi e que se faça memória de Palmares.

Em resumo, celebrar Zumbi é manter viva a história de dor e sofrimento de homens e mulheres que não viajaram por vontade própria, mas, feito mercadoria, foram desterrados e tornados escravos em terras que não eram sua. Não podemos esconder o sangue que se derramou para alimentar os sonhos de riqueza e poder de nosso patronato e nossa elite política. Não podemos esconder que ainda se derrama sangue em nossas periferias e a vitima são nossos filhos. Para nós celebrar Zumbi de Palmares é, como dizem Mano Brown e Edy Rocky, produzir “um raio X do Brasil”.

Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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