domingo, 5 de novembro de 2017

Eu Não Sou Negro, por Claudio Domingos Fernandes

Lincharam um homem
Entre os arranha-céus,
(Li no jornal)

Procurei o crime do homem
O crime não estava no homem
Estava na cor da sua epiderme
Solano Trindade, Civilização branca, nova Alexandria: 2007

Dia destes, meu filho chegou triste da escola. Não quis comer, desinteressou-se do cachorro, exilou-se acabrunhado, silente, em seu quarto. Algo incomum num menino vivaz, espontâneo, falante. Procurei saber o que se passava: “Nada, quero ficar sozinho”. Deixei-o na dele, precisava ocupar-me de uns relatórios, revisar um artigo. Um pouco antes do café da tarde, ele se acostou a mim e ficou me observando terminar minha revisão. Perguntei-lhe: “Tudo bem? O que houve?” Não obtive resposta. “Deve ter balas ali na minha mala” apontei-lhe a mala acostada a uma estante. Pediu-me colo. “O que é nefando? E lúgubre?”, perguntou-me com voz chorosa, olhar apagado. “Lúgubre se diz de uma pessoa triste, de uma situação triste. Nefando é algo indigno de nomear, é algo do qual não se fala, porque é algo muito vergonhoso.” “Não quero ser negro!” falou-me com voz magoada. “E porque? O que tem de errado ser negro?”, perguntei-lhe estupefato. “A professora disse..., pediu pra gente pesquisar no dicionário. E o dicionário diz que negro é sujo, encardido, lúgubre, nefando. Eu não sou sujo. Eu não quero ser negro...: não quero ser negro!” “Querido”, disse-lhe, “você tem razão, nessas acepções nós não somos negros e os dicionaristas deveriam rever-se.” Expliquei-lhe que, talvez a professora não tenha alcançado seu objetivo, e procurei esclarecer-lhe que negro não era uma condição, mas uma posição ante a vida e que a cor de nossa pele não nos determina. [...]. Dormiu em meu colo. Enquanto me preparava um café, fiquei elucubrando o tema, que me levou a produzir o que segue***

“(…) O que os racistas têm que fazer é tratar de encontrar em seus próprios corações em primeiro lugar porque foi necessário ter um negro, porque eu não sou um negro eu sou um homem (…) Se eu não sou o negro aqui, e vocês o inventaram, vocês os racistas tem que descobrir por que. E o futuro deste pais depende disso, se você é capaz ou não de fazer essa pergunta”. James Baldwin, 1963.

Nós somos humanos. Entre humanos não há raças. Há diferenças de gênero, sociais, econômicas, culturais, há desigualdades de oportunidades, de acesso aos bens produzidos, aos recursos naturais, ao uso da terra,ao conhecimento. Desde sua origem, os humanos espalham-se por todo planeta, ajustando-se a diversificados relevos geográficos e variadas temperaturas e intempéries climáticas. Algumas bastante inóspitas. As tonalidades de pele dos humanos são características de sua adaptação a essas diferenças geográficas e climáticas, e à miscigenação. De tal modo a tonalidade de pele dos humanos varia em uma escala de matizes consideráveis. Mas seja o sujeito de pele mais clara possível, seja o de pele mais escura possível, pertencem a uma e mesma espécie. E a espécie humana não se divide em raças. 

A divisão dos homens em raças é uma invenção covarde, maliciosa e, ela sim, nefanda, de homens sem escrúpulos, gananciosos, orgulhosos de suas barbáries. Homens guiados pela cobiça, pela torpeza, cegados pelo desejo de tudo possuir. Procuraram na invenção das raças uma justificativa às suas ignomínias.

Os dicionaristas deveriam rever o verbete Negro. Na verdade deveriam aboli-lo, pois o negro, como condição, não existe. 

O racismo existe e o combato. Ele é responsável pelo extermínio dos povos nativos, ontem e hoje. Pelo ingente tráfico de homens e mulheres do continente africano, aqui tornados escravos. O racismo está presente na persistente negação à terra aos nativos e quilombolas, no extermínio sistemático destes povos e de jovens de nossas periferias, na indisfarçada insatisfação de setores da sociedade com o ingresso de nossos filhos da nas universidades públicas. Na história recente da humanidade não podemos esquecer Auschwitz, sua face mais nefanda.

O racismo existe! O negro não! O negro, como raça, é uma invenção, Na citação de James Baldwin eu usei racista, no lugar de branco do texto original. É preciso considerar que nem todo homem branco é racista e que o racismo não é uma peculiaridade de homens brancos. Também o branco é uma invenção. A raça não existe, existe o racismo. A cor de minha pele não me define, a raça só existe como disposição a lutar contra toda forma de ódio e contra toda tirania.

Neste sentido, sem ser religioso, talvez se possa dizer, que ter raça é ser instrumento de paz e levar amor onde há ódio..., esperança onde há desespero, alegria onde há tristeza, luz onde há trevas, liberdade onde há opressão, dignidade onde há humilhação, partilha onde há fome e exploração...

O que segue escrevo para meu filho que tem razão: nós não somos negros, mas temos raça. 

MENINO NÃO CHORE A COR DE TUA PELE

Menino não chore a cor de tua pele, não chore teus cabelos, o odor de teu suor. Não chore a ignorância dos que odeiam a si mesmos antes de odiarem a ti.

Brinca, menino, com teus sonhos. Faz do vento teu companheiro, da tarde caindo, uma canção. Corre ao lombo de um cavalo, banhe-se nas águas do rio, converse com os pássaros e os chame: irmãos. Cultive, menino, a paz.

Raça, menino, não é uma condição. É postura firme, corajosa contra a opressão. É luta de quem luta contra o ódio de quem primeiro se odeia e destila-se contra uma nação.

Menino não chore a cor de tua pele. Ela é tua proteção. Não desdenhe os que, por pura mediocridade e hipocrisia, destilam desinformações, cativam os ignorantes e os que desejam poder e riqueza, e alimentam ódio em seus corações. Não os desdenhe, repito, menino. Mas, dê conta dos que te amam e te ensinam a amar como escolha e responsabilidade, como solidariedade...

Dê conta dos que te amam, menino, e brinque com a esperança; arranque-a de teus livros. Não és a cor de tua pele e se tens raça é coragem, é bandeira que se impunha contra a dor, a fome, a humilhação. Tem raça quem se impõem contra a opressão.

Não chore a cor de tua pele menino, não chore teu cabelo, o odor de teu suor. Não tenha vergonha do que não és. Brinca, que é tempo de tua infância. Corre com o rio ou livre no lombo de um cavalo, suba em árvores, converse com pássaros, cante às flores e imagine em cada nuvem povos que se abraçam e dividem o pão. Lembre de teus ancestrais, de seus grilhões, da expropriação de seus sonhos, seus desejos e paixões; da luta que travaram, e mesmo sem condição de vencer a vilania, da resistência que impuseram. Raça é fazer memória e resistir; não é uma condição, é uma postura contra o extermínio de nossos jovens em terras quilombolas, nas reservas nativas e nas periferias de nossos centros urbanos. 

Não é a cor de tua pele que te faz homem menino. É amar a vida, a liberdade, uma só humanidade. E raça é disposição a lutar contra toda tirania, contra a insensatez dos que expropriam, dos que traficam vida, negam direitos, produzem fome e sofrimento e executam homens e mulheres por ambição.

Tenhas raça menino contra toda opressão. Mas agora brinca, brinca e sonha, e veja nas estrelas ao redor da lua homens partilhando o pão. Não és tua cor menino: és esperança em nosso coração.

Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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