terça-feira, 3 de outubro de 2017

Moura Torta, por Claudio Domingos Fernandes


Tínhamos medo da “Moura Torta”. Seus cabelos desgrenhados, os olhos esbugalhados, apagados de sentido, a ausência de dentes no sorriso melancólico. Arrastava a perna esquerda, caminhava maltrapilha, catando bitucas de cigarro e mendigando. Era tia que nos colocava medo:

“Arruma esse cabelo menino! Moura Torta vem te catar piolho”. 

E tia nos contava a história da Moura Torta. Celesthina Álvares, era seu nome de batismo. Filha do coronel Sebastião Salgado, cresceu formosa e gentil. Veio certa vez da cidade um reporter de jornal importante fazer matéria sobre uma certa galinha que andava de fasto e se achava galo. 

“Tanta coisa que se deve acontecer, lá na capital, e esse aqui, querendo saber de galinhas”, comentavam na venda de seu Quinzinho. 

Era moço educado, bom de prosa que, com paciência explicava: 

“Na capital não se pode publicar de tudo. Tem censura”. 

Dizia o moço, bebericando com os homens de Coronel, que na capital “homens e mulheres sumiam ou eram presos sem muitas explicações”. Contava de um que fora preso em uma mesa de bar por discordar de um certo tenente sobre criação de galos de rinha. 

“O tenente impôs sua razão, com voz de prisão”. Na capital, “tinha-se que tomar cuidado com que se dizia e, principalmente, se escrevia”, completava a conversa. 

Foram se ver, o moço e Celesthina, para despertar entre eles o mais fervoroso sentimento, para desconforto de coronel Sebastião Salgado e descontentamento de um certo Julio Batista, preterido por Celestina. Como o moço apareceu, desapareceu. Diziam uns que fora o coronel, outros que fora o tal Batista, outros, a boca miúda, diziam que tinham sido homens da capital. 

Tínhamos medo da “Moura Torta”, de suas convulsões, seus arribar as vestes, mostrando-nos suas intimidades. Celesthina perdera a criança no trabalho de parto, entristeceu-se até a loucura, e quando a mãe morreu, abandonada à sorte e à caridade alheia. Tínhamos medo da “Moura Torta”, de Celesthina, com tia, aprendemos a ter piedade. Todos esconjuravam Celesthina, tia a acolhia, dava-lhe banho, trocava-lhe as roupas, penteava-lhe os cabelos. Celesthina sorria, sua falta de dentes, olhando-se no espelho. O sorriso de Celesthina eu jamais temera.

Claudio Domingos Fernandes


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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". E-mail: cdomimgosfernandes@uol.com.br

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