domingo, 29 de outubro de 2017

Menos Paulo Freire, Mais Bolsonaro, por Claudio Domingos Fernandes

Em uma diáfana manhã parnasiana de um azul de soneto deparei-me com Nelson Rodrigues. Tomamos juntos o trem para a Capital. Sujeito de prosa boa esse Nelson. Tornou a viagem, geralmente um perrengue, menos incomoda. O tempo passou e não percebemos. Não obstante torcedor do Fluminense, Nelson é um futebolista genial. Ufanista de nosso escrete canarinho, admirador confesso de Garrincha e Pelé, Nelson se mostra um profundo conhecedor de nosso estofo. Embora lamente, vez ou outra, nosso “complexo de vira-lata”, ele acredita no brasileiro e afirma: “o brasileiro é uma nova experiência humana. O homem brasileiro entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem.” À medida que o trem avança, e os espaços vão sendo disputados, a cada nova estação, vou me deixando convencer que suas crônicas são “um dado fundamental para sociólogos, historiadores e políticos” e que “este país é uma descoberta contínua e deslumbrante”. Estamos quase chegando a nosso destino, quando ele me diz: “nossa resenha ensina mais sobre o país do que Os sertões, no princípio do século. Fazia referimento à clássica obra, de Euclides da Cunha. A viagem chega a seu destino, espanta-me não perceber o tempo passar. Tenho que despedir-me de Nelson e entregar-me ao dinamismo dos negócios humanos e seu tédio cotidiano.

Passo a jornada produzindo relatórios que serão assinados e engavetados sem serem lidos, tomando café, consultando o relógio, tentando certa sociabilidade, participando de um ou outro debate de natureza inútil. Alieno-me. Retomo e rumino fragmentos do agradável encontro com Nelson. Não precisa muito, o próprio Nelson está ao meu lado...

O brasileiro não é um tipo único. Em Nelson, dois modelos se destacam: o “pau de arara”, o “subdesenvolvido”. “O pau de arara é um tipo social, humano, econômico, psicológico...” “Vamos imaginar”, diz-me Nelson, tentando ilustrar-me seu “pau de arara”, “Vamos imaginar esse pau de arara na beira da estrada. Que faz ele? Lambe uma rapadura. E além de lamber a rapadura? Raspa, com infinito deleite, a sua sarna bíblica... Não basta ao miserável a sarna, nem a rapadura. Ainda acrescentam a humildade.” E tem mais: “o sujeito é roubado, ofendido, humilhado e não se reconhece nem o direito de ser vítima.” O “subdesenvolvido” é o “brasileiro que não gosta de brasileiro”, um Narciso às avessas”, “vai ao estrangeiro e, em vez de conquistá-lo, ele se entrega e se declara colônia” (veio-me em mente um certo nosso deputado em recente viagem aos EUA). O “subdesenvolvido” tem vergonha de sua condição nacional, cospe na própria imagem, desdenha o que produzimos, gostaria de ser um Lord inglês. Negam nossa história, negam nossos tímidos avanços, nossas poucas conquistas, nossos poucos homens e mulheres que se destacam na arte, na cultura, no esporte. Desdenham nossas potencialidades, vendem impotência e frustração. O subdesenvolvido de Nelson, são os “entendidos” que não têm um mínimo de isenção, de objetividade, de apreço aos fatos. Ressentidos com os fatos, os “entendidos” parecem dizer: “se os fatos não confirmam o que escrevo, pior para os fatos”. Os “subdesenvolvidos” de Nelson limitam-se a vender depressão, demonstram pouco apreço a nosso povo. Sonham com uma sociedade restrita. Nela não há “um único e escasso preto. E nem operário, nem favelado, e nem torcedor do Flamengo...” (ou do Corinthians, ou do Bahia). No Brasil dos subdesenvolvidos não cabem “paus de arara”, só há lugar para “os filhos da grande burguesia, os pais da grande burguesia, as mães da grande burguesia. Portanto, as elites”. 

Quando deixo a repartição, a tarde declina anunciando uma noite parnasiana, com um luar de soneto. Decido caminhar pela cidade contemplando figuras de Portinari, assumindo as marquises, revirando lixos, homens-bichos, dos versos de Bandeira, me perguntando: não obstante seu realismo, nos é possível, como em certas passagens de Nelson Rodrigues, acreditar no brasileiro e deixar de ser esse embate de subdesenvolvidos e paus de arara?

Chego em casa, desfaço-me da bolsa, do paletó, desato o nó da gravata. Descanso Nelson Rodrigues entre Borges e Murilo Rubião. Ligo a televisão, passo o canais entediado. Em uma estação qualquer, um subdesenvolvido, um lorpa, rosna: “menos Paulo Freire, mais Bolsonaro”. E o pascácio continua: “menos diálogo, menos amorosidade, menos confiança no ser humano, menos esperança... Menos negros, menos homossexuais, menos direitos”. Como diria Nelson: é um “quadrúpede de 28 patas!”. Para evitar a insônia ou a hipótese de um pesadelo, tomo os remédios. Durmo, não hei de sonhar...

Claudio Domingos Fernandes

---
Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

---
Balcão da Arte 
E-mail: balcaoarte@gmail.com / Facebook: Balcão da Arte / Comunidade no Facebook:  Balcão da Arte / Google Plus: Balcão da Arte / Comunidade no Google Plus: Balcão da Arte / Twitter: @balcaodarte / Instangram: balcaodarte

Nenhum comentário:

Postar um comentário