sábado, 15 de abril de 2017

A cruz que eu carrego está vazia. O que nela jazia Ressuscitou!, por Claudio Domingos Fernandes



À Produção e ao Elenco de Passos da Paixão 2017

O Passos da Paixão 2017 nos convidou a pensar nossas práticas pessoais em nosso cenário político cotidiano. “A cruz que você carrega”, lema-tema condutor de toda a trama que se construiu nos provoca uma resposta à pergunta: “E você, qual a sua cruz?”. À primeira vista, porque o Cristo disse que cada qual tem sua cruz, e os que o quiserem seguir deve estar ciente disso e de seu ultrajante sofrimento, acreditamos que somos, como o Cristo, vítimas, e nos colocamos a seu lado. Ao lado de Cristo também havia ladrões, mentirosos, traidores. Eu estou ao lado do Cristo. Mas em que condição? É uma pergunta que me faço sempre. Mas, enquanto produzimos o espetáculo, eu penso na cruz das ilusões do poder que conduz “homens de bem” a espoliar o trabalhador, o pobre, até o tornar miserável, no sentido econômico e no sentido moral, quando esse se espelha em seu algoz. Quando a Sagrada Escritura fala de pecadores, não fala de todos os homens, estes pecadores têm um rosto: são os doentes, os inválidos, os empobrecidos, as mulheres (viúvas, prostitutas, adulteras) os gentios (numa linguagem de hoje: os que não pactuam de minha fé), o estrangeiro, os presos sem condenação. Isto está explicito em Mateus, 25, 35-36. Todo o atroz sofrimento de Cristo, sua dor extenuante, sua agonizante morte é uma esperançosa denuncia. O Cristo carrega em sua dor a expectativa de que faremos dos pecadores de nosso tempo (basta apenas um pouco de sensibilidade social para os perceber) o motivo de nossa cruz. Todos os condenados pelos “homens de bem”, todos os que padecem “a ordem da Família, da Pátria e de Deus”, todos os que não se enquadram no conservadorismo tacanho patriarcal, compõem a cruz que o Cristo carrega. Uma pergunta fica: Quem produz a Cruz do Cristo? A agonia do Cristo atravessa a longa noite de nossa História que resiste à luz do terceiro dia. Tanto sofrimento não pode ser em vão. O silêncio de sua morte atroz nos imobiliza, entregamo-nos as incertezas de nossas ações, quanto mais lutamos contra os senhores do mundo, mais vitimas nos tornamos de suas sádicas injustiças, mais nos vemos extorquidos, alijados de nossas tão sempre incertas conquistas. A cruz do Cristo: os milhões de rostos desfigurados do CAPITALISMO, nos titubeia. Nossa fé (a minha não é religiosa) ousa dizer que não! A cruz do Cristo: os humildes humilhados, não comporta a grandeza do Cristo. O Cristo a esvazia de sentido, não é a arrogância disfarçada das elites em programas eleitorais que há de vencer. A longa noite de nossa história é só uma noite longa: Já a luz da ressurreição desponta e com ela a esperançosa mensagem do Cristo: “Ide e contai a João o que estais ouvindo e vendo: Os cegos enxergam, os mancos caminham, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as Boas Novas estão sendo pregadas aos pobres.” Os pobres hão de se levantar, hão de empunhar a luta, hão de tornar a cruz do Cristo, a cruz da vitória. A dor do Cristo é a dor de quem acredita em sua causa. E o Cristo que morre por nossos pecados acredita que os pecadores: os marginalizados, os expropriados, os extorquidos, os perseguidos, os aprisionados, hão de narrar uma nova história, em que todos hão de ter vida plena. Grato a todos que tornaram possível o Passos 2017. 
Sem nenhum direito a menos!!! FORA TEMER!!!

Claudio Domingos Fernandes



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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". E-mail: cdomimgosfernandes@uol.com.br

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