sábado, 9 de maio de 2015

Guitarra Flutuante, por Joyce Gomes


Era sábado com aquela deliciosa brisa gelada outonal que ecoava nos mais variados lugares. Sábado como qualquer outro para todos, menos para mim. Era mais um dos muitos sábados que uma certa figura me chamava, um certo aparelho que me enlouquecia com apenas uma voz que se encontrava calada. Era um sábado... sábado em que chamava a fala sedutora daquele rapaz pelo telefone. Não era mais um sábado como os outros já ocorridos. Era um sábado, véspera de domingo, véspera dos Dias das Mães... Enfim, era um sábado que me chamava diretamente para conversar com um telefone que não possuía vida própria senão por intermédio de uma voz... Era apenas um sábado outonal que me seduzia com apenas um aparelho que não falava, mas, que seduzia...

Aquele telefone que era frio na aparência, mas que por de trás ardia num derradeiro esplendor que jamais se repetirá. Aquele discurso sedento de atenção conduzia-me na mais inocente malicia para algo totalmente memorável. Aquela voz ganhava minha persistência e dava o mapa de sua mina.

Meu olhar à janela, devia estar reluzente, avistava a quem queria bem, acompanhado de alguém ocultado no telefone. Fora ocultado para não perder a guerra da persistência que na mais pia inocência eu cedia. Fitei-o, contemplei seu olhar clamando por sua presença naquela rua vazia de habitantes. Onde ecoava na esquina mais próxima uma música familiar, uma música que desde bebê eu ouvia...

Arquitetava mil e uma coisas dentro de meu cérebro. Ouvia sem ouvir. Olhava sem olhar. Tímida com aquela presença desconhecida. Com o coração nada ponderado. Indagando a minha presença numa hora nada propicia para uma conversa a dois.

Meus lábios sedentos de água naquela rua deserta, sob um sol decadente... Minha mente demente perguntava sobre minha presença estimulada sabe-se lá pelo quê...

A inocência ao ouvir sobre a atual pequena, a nova namorada, fez-me crer que era hora de abandonar o navio. Procurar ganhar a rua, ganhar a hora atrasada do serviço. Mas estátua eu era! Observava aquele olhar empoleirado no muro, admirava aquele dedinho mindinho que era o mais gigante no meu coração. Contemplava aquele jeito encantador. Circulava meu olhar por seu corpo para mais rápido voltar naquela boca que, um dia quis muito beijar com ardente paixão.

Sua mente planejava alguma coisa que eu desconhecia. Entrou em sua casa. Eu fugia devagar. O seu amigo avisou da minha fuga. Escondi. Telefonou. Esperei escondida indagando a sua volta. Seu amigo avisava da minha partida, enquanto eu caminhava lentamente esperando à volta do meu tesouro que não tardou a aparecer.

Sua indagação sobre minha saída fugitiva questionava com aquele meu anel entre seus dedos. Extorquia-me um beijo que tanto quis dar, cobrava um beijo que eu não sabia como ganhar. Estranha era aquela sensação mas, mais doce era a idéia que me cativava. Pressionava-me com aquela argolinha entre os dedos pedindo apenas um beijo em sua face, um beijo mais formal. Mesmo queimando na minha mente a resposta; ainda, hesitante, estava.

Procurava uma distração para nada responder. Ganhava tempo para algo que não sabia como entregar. Seus lábios secos assim como os meus, ainda indagavam uma única atitude ou afirmação. Era apenas um beijo formal, nada mais. Hesitei tanto devido apenas um beijo amigável. Enquanto se afastava com aquele objeto na mão... Seria um beijo nada promissor...

Sua boca pronunciava, apenas, um beijo no rosto. Já estava eu confiante ma decisão. Sua Mao mostra o anel. Aproximava do seu corpo para beijar-lhe a face. Não sei qual química me afetou, qual lhe afetou, mas... Abri os meus olhos e não acreditei no que havia feito. Parecia ser um sonho, mas, não era... Primeiro beijo... Primeiro tímido toque labial...

Aquela mão com dedos calejados acompanhado de um tom tão agradável puxava-me contra seu corpo, encostava-se à parede... Outro toque.

Meu compromisso já bem atrasado me chamava. Seu amigo saía de dentro daquele casulo. Ganhava eu, aquela rua, para minutos mais tarde levar sermão do patrão.

Mas eu não andava, flutuava! Meu primeiro beijo, primeiro beijo com... Escorria a tarde, mas meu pensamento era fixo: era sua guitarra e não sabia!

Era sábado, nada mais do que um sábado véspera de Domingo, véspera do Dia das Mães. Véspera do Dia das Mães, mas quem ganhou o presente foi a filha...

Joyce C. L. Gomes
09 – Maio - 1998


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Professora da Rede de Ensino de Poá, Graduada em Letras (UBC) e em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda (UMC). Conquista da Menção Honrosa e de Prêmios com o grupo Vibe Comunicação na UMC: Relatório Acadêmico "Do Fusca ao New Beetle: Trajetória de Campanhas (Menção Honrosa - 2009)"; Painel, Relatório e Campanha Alternativa "Marketing Esportivo no Futebol" (Prêmio Excelência - 2010); Painel e Campanha Publicitária "Associação Cultural Opereta" (Prêmio Excelência - 2011). Participou do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UMC) com a pesquisa "Trajetória de campanhas do Fusca e o seu impacto sobre o consumidor" (2010/2011). Foi voluntária, de 2011 a 2013, como Secretária na Diretoria Executiva, bem como na Comunicação da Instituição Cultural Sem Fins Lucrativos Associação Cultural Opereta. Conquista do Prêmio (2011) e da Menção Honrosa (2012) no 7º e 8º Prêmio Mogi News/ Chevrolet de Responsabilidade Social com o Projeto "Passos da Paixão", da Associação Cultural Opereta. Recebeu convite e teve 10 poemas publicados na coletânea “Palavra é Arte”, da Cultura Editorial (2014). Atualmente desenvolve os blogs Anderson Borges, Balcão da Arte, Guitarra Flutuante e Joyce Gomes: Professora e Publicitária.

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