domingo, 24 de maio de 2015

Exílio, por Claudio Domingos Fernandes


I
De quando cheguei ao exílio não escrevia. Já se vão onze meses sem traçar uma única linha sobre o papel. Tenho acompanhado noticias da incansável luta de meus companheiros, sinto-me, no entanto, alienado. Se tomo a pena e tento traçar algo sobre o papel, o faço com esforço hercúleo. Estou oco, tudo me desinteressa. Caminho soturno por estas ruas estranhas e seus habitantes. Seus gestos e comportamentos pouco me dizem, o ritmo de suas vidas e suas paixões não atraem meu olhar. Talvez esta seja a dificuldade em não ter o que escrever: exilado, alieno-me da vida. 


II
Memória e fantasia são companheiras de solitárias noites frias. A segunda se avulta sobremaneira sobre a primeira. Deliro mais que sonho. O sol pouco aparece. Parece-me não haver primavera. As casas são cinzas e austeras, as pessoas carregam faces rígidas e olhar lúgubre. Entre dentes balbuciam monossílabos incompreensíveis. Evito-as o quanto posso. Passo os dias burocraticamente compilando dados sobre mortos do século XIX. No tempo livre fecho-me em meu quarto e perco-me em vagas leituras dos poucos livros que trouxe comigo.


III
Tenho entre as paginas de um dos livros a foto do jardim de Christine Ramos, com os dois anjos de mármore circundando a brônzea rosa existencial. Quis fazer daquele instante morada eterna. Naquela tarde, no entanto, a cisão amadurecia. Um vento outonal fustigava-nos. Uma nesga de sol cindia sobre a face do anjo que sorria. Eu resistia ao fadado. O olhar duro de Christine não titubeava. Seu não irresoluto soou como canção fúnebre. A descabida medida que tomei trouxe-me a esta terra sombria e sua gente voltada para o próprio ego. Abandonei o sentido da vida e, estranho entre estranhos, encasulo-me em meus livros e nesta imagem que conservo. Nela Christine sorri – sorriso que lhe arranquei em algum momento, meu pecado e minha queda. Se ainda conservo algum alento, é o adâmico sonho de rever o paraíso, mesmo que nele já não se possa mais habitar. 


Claudio Domingos Fernandes


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Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". E-mail: cdomimgosfernandes@uol.com.br
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