domingo, 26 de abril de 2015

Sugestão de Livro: Tristão e Isolda



I
NASCIMENTO DE TRISTÃO 

HÁ MUITO, muito tempo, depois da queda do Império Romano, mas antes da coroação de Carlos Magno como imperador do Ocidente, reinava na Cornualha o rei Marcos. Tanto residia em Lantien, um solar situado na paróquia de Saint-Samson, como na fortaleza de Tintagel, cujo porto se abria para a costa ocidental da Cornualha. 

Marcos procedia de uma ilustre linhagem; talvez descendesse até de um antepassado mítico identificado com um deus de forma animal, do qual herdara as orelhas de cavalo, que dissimulava cuidadosamente sob o gorro. O próprio nome, Marcos, significava cavalo em língua celta. 

O rei chegara à idade madura sem ter arranjado mulher, mas uma das suas irmãs tinha um filho, o duque Audret, ao qual concedeu durante muito tempo toda a sua confiança. A irmã mais nova, Brancaflor, ainda não casara. 

Marcos era nobre, freqüentemente generoso, leal, corajoso, mas irascível, impressionável e de humor variável, capaz de uma violência extrema e até de crueldade nos seus súbitos arrebatamentos. Desempenhava com honra o seu lugar nos combates, quando tinha de comandar o seu exército, mas distinguia-se sobretudo na caça, a sua ocupação preferida. Entre os nobres cornualhenses seus vassalos, que lhe deviam conselho e ajuda, havia vários que pretendiam quase sempre lhe impor as suas vontades e que, para obrigarem-no a satisfazer os seus desejos, não hesitavam em ameaçá-lo com a rebelião: se Marcos não se submetesse às suas exigências, retirar-se-iam para os seus castelos construídos em rochedos elevados, cercados de altas paliçadas e de fossos profundos, e pegariam em armas contra ele. Marcos não era homem para enfrentá-los abertamente, e por mais de uma vez se inclinara perante as ameaças desses turbulentos senhores feudais, sobre os quais a sua autoridade era precária. Preferia por vezes ceder, para depois retomar a superioridade sobre eles por meio da astúcia e ganhando tempo. 

Marcos teve de defender-se várias vezes contra os ataques de outros reis cujas terras confinavam com as suas e que faziam incursões na Cornualha. Mas era tal a sua fama de nobreza e valor que vários príncipes e barões lhe vinham oferecer os seus serviços e combater por ele. Tal foi o caso de Rivalino, filho do rei de Leônis. Tinha um porte tão altivo e distinguia-se por tais feitos que chamou a atenção de Brancaflor, a irmã mais nova de Marcos. Esta era bela e graciosa, de nobre figura, louvada e desejada entre todas, cortês e bem-educada; por certo que não havia em toda a Grã-Bretanha uma rosa com tanta graça e tal frescura. Um dia em que vira Rivalino justar com outros vassalos, caiu em tal aflição e em tais cuidados, nela tão pouco comuns, que nem ela própria compreendia bem os movimentos do seu coração. Nesse dia, reconheceu que Rivalino ultrapassava todos os outros jovens em habilidade e valentia; ao ouvir os homens e as mulheres gabarem a sua audácia e coragem, ao contemplar durante longo tempo a sua destreza a cavalgar e a justar, todo o seu pensamento foi para ele com o seu desejo. Em breve ambos trazem um mesmo cuidado e um mesmo segredo: ela ama-o com todo o coração e ele com leal querer. Os jovens eram excelentes a arranjar encontros sem atrair censuras: nem o rei nem ninguém na corte desconfiava de nada. Todavia, como Rivalino ultrapassava todos os homens em boas qualidades, se este tivesse declarado a Marcos o seu desejo de desposar a irmã, o rei teria de bom grado consentido na união. Mais ainda: sem que Rivalino lhe tivesse dito alguma coisa, o rei parecia por vezes favorecer os seus encontros com Brancaflor. 

Algum tempo depois, Rivalino ficou ferido num combate ao serviço de Marcos e os seus homens transportaram-no para Tintagel, a fim de aí ser tratado. Brancaflor, pelo que ouvia dizer, julgava que os dias do seu amado estavam contados, mas não ousava mostrar em público a sua dor, com medo de revelar sua paixão. Desejava, pelo menos, visitar o ferido antes que este morresse. Usou de tanta prudência e astúcia que ninguém a viu entrar no quarto. Avançou para o ferido, sentou-se no leito onde este jazia e logo, de amor e pesar ao mesmo tempo, desfaleceu. Quando se reanimou, tomou-o nos braços e beijou-o; os seus lábios devolveram-lhe a alegria e a força. Rivalino apertou-a longamente contra si e foi então que concebeu a criança cuja história é o assunto deste romance. 

Tratado pelos mais hábeis médicos, Rivalino em breve se curou. Mas mal tinha recuperado a saúde, chegam mensageiros do seu país: o seu pai morrera e tinha de regressar imediatamente a Leônis para, por sua vez, aí reinar. Quando Rivalino, pronto a embarcar, veio despedir-se de Brancaflor, esta lhe disse: “Doce amigo, quanto mal me adveio por amor de vós! Se Deus não vem em meu auxílio e não me socorre, nunca mais terei alegria, pois aos sofrimentos antigos se vão juntar novas misérias. Após a vossa partida, poderia tentar retomar confiança e coragem, mas ficai sabendo que trago em mim um filho vosso; ficando aqui, terei de suportar sozinha o castigo da minha falta.” Rivalino fá-la sentar a seu lado, seca-lhe as lágrimas e diz: “Querida, ignorava o que acabais de me contar; agora que o sei, quero que venhais comigo para o meu país e aí vos prestarei as honras que convêm à nobreza do nosso amor."

Era já noite cerrada quando Rivalino, após se ter despedido do rei Marcos, alcançou a nau onde Brancaflor, aproveitando a obscuridade, se lhe juntou. Os seus companheiros já aí estavam reunidos, prontos para zarpar: levantam o mastro, içam as velas, o vento lhes é propício. Chegam sem novidade ao porto de Kanoël. 

De regresso ao seu país, onde sucedia ao seu defunto pai, Rivalino encontrou a terra em grande perigo, pois o duque Morgan aproveitara-se da morte do velho rei e da ausência do filho para uma vez mais invadir Leônis. Rivalino mandou chamar o marechal da sua corte, Rouault le Foitenant, que sabia fiel e dedicado. Confiou-lhe o que acontecera a ele próprio e à sua amada Brancaflor. “Sire - disse o marechal -, vejo que não cessastes de crescer em mérito e em valor. Não podíeis ter encontrado mulher de mais alta linhagem que a irmã do rei Marcos. Escutai, pois, o meu conselho: pelo bem que ela vos fez, recompensai-a. Quando tivermos levado a nossa guerra a bom termo, uma vez libertos dos embaraços que nos causa o duque Morgan, celebrai umas bodas grandes e ricas e tomai-a publicamente por legítima mulher perante os vossos parentes e barões. Mas desposai-a desde já perante a Igreja e à vista dos clérigos e dos leigos, como o exige a lei de Roma. Deste modo aumentareis a vossa honra.” Assim fez Rivalino, e quando Brancaflor se tornou sua mulher, confiou-a à salvaguarda de Foitenant, enquanto ele próprio juntava-se ao seu exército. 

Rouault conduziu a jovem esposa para uma fortaleza e lá a recebeu em sua casa com grandes honras, como convinha à sua classe. Rivalino ainda não regressara da guerra quando a sua mulher deu à luz um filho, morrendo ao dar-lhe a vida. Antes de morrer, Brancaflor entregara a Rouault le Foitenant um anel precioso que lhe dera o rei Marcos e que vinha dos seus antepassados comuns: este anel deveria ser entregue à criança, quando esta crescesse, como recordação de sua mãe e da sua estirpe materna. 

Quando Rivalino, algumas semanas mais tarde, voltou vitorioso da guerra, experimentou uma cruel dor e deixou-se afundar num profundo desespero. Depois de ter prestado as honras fúnebres à querida morta, enviou mensageiros ao rei Marcos para anunciar-lhe o seu casamento com Brancaflor e, ao mesmo tempo, como esta perecera ao ter o filho. Em seguida mandou batizar a criança sem nenhuma demonstração pública de alegria e deu-lhe o nome celta de “Drustan”: os contadores e a tradição popular transformaram-no em “Tristão”, para melhor significar a tristeza dos pais no momento do seu nascimento, tristeza essa que não era mais do que um presságio dos transes que o destino reservava ao recém-nascido.

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