domingo, 10 de agosto de 2014

Sobre Palavras e Amor, por Claudio Domingos Fernandes

O texto que segue, eu o colhi dos cadernos de ensaio de Euripedes Santos. E embora esteja intitulado Rascunhos para um Romance, ele pertence ao conjunto de cartas que ele escreveu para “Flor de minha existência”, cujo verdadeiro nome Euripedes sempre manteve oculto, mas se seguirmos observações de Rodner Lucio, é com razoável probabilidade dirigido a Ihvs Aghapemene, que Euripedes Santos cultivava em seu jardim.

Falar é um mal necessário! Quem muito fala tem pouco a dizer e provoca mais desentendimento que esclarecimento. Por outro lado, as coisas precisam ser nominadas, mesmo que não estejam toda no nome que as qualificam. Escrever é menos necessário que a fala. A pretensão da clareza e da lógica no escrito não suporta uma leitura mais atenta. Ciente de tais limitações, eu me sinto mais seguro escrevendo-te. Não é uma justificativa; é algo próximo de uma psicanálise, busco um autoentendimento: “falando nos curamos”, disse-me um amigo.

Na infância, por vergonha, engolia as palavras. Fui, muitas vezes, chacoteado por trocar o “l” pelo “r”. Escondia-me nos livros de meu avô. E, por defesa, compus-me este personagem circunspecto e sisudo. 

Continuo a engolir palavras, não mais por vergonha, mas por receio. E meu receio é perder-te sem ter-te conquistado.

Quando em sua presença penso abrir-te um largo e generoso sorriso e dizer-te com viva animação de meus dias e de como anelo-te percorrendo a vida comigo. Mas basta ergue-me o olhar para eu emudecer e carrusmar-me. 

A palavra escrita é limitada, ordena o pensamento, mas não desce às emoções, às sensações, aos sentimentos mais profundos. Não há palavra que descreva confusões mentais provocadas por “bobagens” ou por questões graves.

A realidade toda não cabe na fala; não emerge na escrita. Com a fala, com a escrita, dissimulamos a realidade: “o poeta finge a dor que não sente”. Depois a realidade não é um estado imóvel, completo, definitivo. E aquele que a retrata esta nela precariamente, susceptível a inúmeras circunstancias. Escrever é ter ciência das incompatibilidades entre sentir e pensar e representar um e outro.

O comportamento indica apenas a desordem, nunca as motivações. Se de fato “o poeta finge a dor que sente” e o filosofo “especula acerca do que é ausente” como indicar se a dor é dor ou fingimento? E se é dor, como classifica-la “bobagem” ou dor grave?

Dizia minha avó: “este menino”, e apontava-me, “em um copo d’água, faz tempestade”. “Antes de quebrar, encha os pulmões de ar e grite tua raiva”, ensinava. Eu, geralmente, engulo o grito e explodo em arremesso de objetos. 

O medo é uma força estranha. Acua-nos, imobiliza-nos, emudece-nos. O medo também provoca desatinos e produz atitudes desesperadas. Insegurança produz medo. E num relacionamento, o acumulo de medo é o ciúme. Mas ciúme é incerteza quanto ao amor que se deseja receber, nunca quanto ao amor que se dá. E eu sei de teu amor, receio não amar-te a tal altura. Pouca estima também produz medo.

Somos racionais? Sim! Mas somos sobremaneira passionais. A razão nos guia, mas o que nos move são as paixões. Nem sempre estas duas faculdades estão de acordo. Em mim são totalmente assimétricas.

“Passo os dias à beira do abismo” pode ser apenas figura de linguagem; uma construção fictícia. Mas descreve também a condição espiritual de uma pessoa.

O abismo abriu-se diante de mim na noite em que dissestes: “quero experimentar um outro amor”.

E eu vivo com esta sombra: de um outro amor surgir-te. 

Não te quero presa a mim. Mas te anelo de tal forma que perder-te é não ser.

Li em algum lugar um dito de Ovídio: “Vejo o que é melhor e aprovo; sigo o que é pior”. Amo-te deste amor que, assim, no papel, compreende querer-te o que é melhor. Por medo assumo atitudes que me fazem perder-te.

Depois de tanto tempo anelando-te, creio que posso arriscar algo sobre o amor que quero atingir. Sim, amar não é sentir: Amar é querer. 

Com todas as contradições que carrego, eu só posso querer por mim e em mim. E eu quero que as coisas aconteçam como têm que acontecer. Assim, eu amar-te-ei amando tua vontade, mesmo que tal vontade seja, de mim, querer afastar-te.

Receio perder-te, e tal receio me dilacera. Imponho-me superar as conturbações que me assolam. 

Eu quero amar-te assim: Sejas minha vontade!


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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". E-mail: cdomimgosfernandes@uol.com.br


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