domingo, 2 de março de 2014

Sobre o que não somos ainda, por Claudio Domingos Fernandes


“Não nascemos sem, antes, termos sido gestados, não há gestação, sem, antes, haver encontro, só há encontro onde a presença é garantida.” Euripedes dos Santos


A doutrina cristã ensina que mediante o batismo nós nascemos uma segunda vez. Hannah Arendt diz que “É com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano; e esta inserção é como um segundo nascimento”. Eu penso que não acabamos de nascer nunca. E estamos, sempre, prestes a um novo nascimento, que nos abre caminhos inesperados. Estamos sempre em estágio embrionário. O que somos não é, ainda, o que podemos ser. Nascer é sempre um estranhamento, um desafio, um abrir-se ao novo.

Ao nascer, somos apenas possibilidade em um mundo – “esse lugar que é fruto do trabalho e da ação humana e precisa de cada nova geração para ser continuado e transformado” - que “preexistia à nossa chegada e sobreviverá à nossa breve existência” (H. Arendt).

Nascer e agir são sinônimos em Hannah Arendt, e tem como sentido dar início a algo novo. Toda ação e todo nascimento engendra o novo no mundo. Falo aqui de um nascimento especifico, começo pela gestação, antes pelo encontro.

O ano é 1986, eu, que moro na Vila Júlia em Poá, desci a Calmon Viana, para um encontro de Jovens. Lá encontrei Geraldo, Luciene, Lidiane, os irmãos Tarcílio, Rita e Marcélio. Encontrei também Gilberto, quem me havia convidado, Gerson seu irmão além de Esmeralda e Álvaro. Discutiam o que fariam na quermesse, que barraca montariam. Passei a frequentar o grupo todos os sábados, até que iniciei, já no fim de 1987 um grupo em minha casa. Em 1988 o Geraldo veio me visitar com uma idéia na cabeça: “vamos viver juntos, vamos montar uma comunidade”. As primeiras reuniões foram em sua casa. De pronto nasceu o AVC: “Ação Viva Criança”. Nos fins de semana nos organizávamos para trabalhar com as crianças do entorno à Comunidade de Nossa Senhora de Fátima. Ao mesmo tempo uma parte do grupo dedicava-se à montagem de “Pai Francisco”, penso que foi nessa época que conheci o Marco e o Willian. Durante dois anos fizemos muitas reuniões, discutimos e nos desentendemos muitas vezes, fizemos laboratório de vivência comunitária, montamos uma lanchonete, firmamos e des-firmamos relacionamentos afetivos dentro do grupo. No início dos anos 90 eu partir para minha missão religiosa, fui morar em Itaquaquecetuba com os padres Discípulos. Comecei a acompanhar as coisas de longe. Foi assim até 2001, quando abandonei a vida religiosa – um dia devo contar sobre este nascimento.

Todo encontro carrega a potencialidade do novo. Em 1994, nasceu a Associação Cultural Opereta. Um dia, o Geraldo me apresentou um terreno, um brejo e uma não casa na verdade: “aqui será nossa sede!” A vida religiosa não permitia meu envolvimento com a OPERETA, então eu não acompanhei sua infância, eu não a vi engatinhar e dar seus primeiros passos. Em 2000, eu deixei os Discípulos. A Associação já era uma criança dinâmica. No espaço terreno-brejo-não casa, na 1º de maio se instalava sua sede. Durante 10 anos, com suas instalações modestas, mas contando com uma grande rede de colaboradores, A Associação Cultural Opereta promoveu os mais variados tipos de manifestações, eventos e cursos culturais, estabelecendo-se como uma das principais Instituição de Cultura do Alto Tietê. Coube a mim administrá-la na sua fase de transição da 1º de maio para a Emilio Ribas, em sua atual sede.

O que quero manifestar com este relato é que um de meus nascimento se deu entre 1986 e 2010. Minha visão desconfiada – porque o ser humano é tanto capaz de ir à lua; produzir uma vacina que imunize da varíola, e compor uma Divina Comédia ou uma Nona Sinfonia é também capaz de explorar, sacrificar e matar seu semelhante por causa de idéias tortas sobre Deus, propriedade, tradição e família –, mas totalmente otimista – porque no fim prevalecerá o homem da vacina, da Ilíada, de Queixo-me às rosas – Tudo isso se engendra em mim do que tenho aprendido com Geraldo, Luciene, Lidiane, Marco.

Simbiose é um termo que não sei explicar, mas é este nosso envolvimento com uma idéia que nos move e nos faz criar e nos cria no que criamos a ponto de nos confundirmos no que realizamos. “A obra de um homem é o espelho em que ele deve encontrar sua própria imagem” (Rodner Lúcio). Minha relação com a Associação Cultural Opereta é simbiótica, o modo de eu ser no mundo, o meu agir nele se confunde com aquilo que, desde antes de ser, ela se põe como desafio. 

A Associação Cultural Opereta não é, não foi e nunca será uma instituição. É uma comunidade de homens e mulheres que sofrem a constante dor do parto, o que queremos dar à luz é o homem que virá: aquele que podendo destruí-lo o transformará.

Não nascemos ainda, vamos nascendo. A Associação Cultural Opereta completa vinte anos sem ser ainda, está sendo, e “Na bruma leve das paixões que vêm de dentro... Eu já escuto os teus sinais.” (Alceu Valença).


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Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou VACUOS MUNDI. E-mail:cdomimgosfernandes@uol.com.br


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Balcão da Arte 
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