quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Sobre cadeia e escolas, Claudio Domingos Fernandes



"Os valores que nos pautam, pautam nossos investimentos"

Acabo de receber seguidamente três posts de uma matéria de jornal (A GAZETA), dando conta de que se gasta seis vezes mais com um preso que com um aluno. Lembro-me de matéria similar nos anos 80. De lá para cá, houve a universalização do ensino fundamental e médio e caminhamos para a universalização da universidade. Muito se discute a qualidade da educação, e tal discussão remete o olhar sempre para a escola, como se esta fosse o baluarte da educação. Esquecemos que a escola é só um instrumento, um meio, uma passagem. Dependendo do uso político que se faz dela, ela irá formar para a aceitação passiva, naturalizante, da realidade social. Hoje, por exemplo, se há a ideia, construída nos últimos vinte anos, que a escola é um lugar para se frequentar: você não precisa estudar, só precisa estar presente. E estar presente do seu jeito. A instituição, e nela, o professor como seu interlocutor imediato, tem que respeitar você como você é. Como a sociedade tem produzido uma série de idiotice, tem aluno achando que ser idiota é bonito, como tem aluno que já decidiu que quer ser bandido, e dizem-te com toda a tranquilidade isto. Em nome da diversidade, da inclusão, do politicamente correto, vamos produzindo uma sociedade curvada para o individuo e seus desejos egoicos. 

Formação escolar apenas não impede a violência - a bandidagem, que é o que nos vem à cabeça quando lemos este tipo de matéria, é apenas uma das formas de violência que a cadeia abriga -. Nem todo bandido é iletrado. É preciso considerar que há um bom número de graduados e bem formados na bandidagem e ou produzindo outras formas de violência. Depois, investir em educação não se resume a pagar melhor professores, construir mais escolas, oferecer melhores equipamentos pedagógicos, etc. Fossem esses os problemas da formação escolar, faltaria só vontade política. 

A violência não se resolve na escola, ela antecede à formação escolar. A escola é cada vez mais refém da violência. A violência em todos os seus âmbitos é fruto de interesses egoicos em conflito com interesses sociais e políticos. 

Há algo, então que deve anteceder qualquer investimento em formação escolar: que é saber qual deve ser o papel da escola, nela do professor e do aluno, pautado por um projeto de sociedade que não é para nós mesmos, mas para as gerações futuras. Porque antes de enfiar as gerações futuras na escola só para cumprir preceitos legais é preciso que se cultive nela o gosto pelo saber, o respeito pelos que sabem, o querer conhecer não como instrumento, mas como estruturante de seu ser. Isto é algo que antecede a entrada na escola e permeia a consciência coletiva de um povo. Os primeiros valores com que a criança chega na escola são os valores estruturantes de sua personalidade, que são construído em seu estar no mundo em contato com a consciência social de seu tempo. É sobre esses valores que a escola trabalha sem altera-los, pois são estruturantes de sua personalidade. Um olhar atento à nossa realidade social, percebemos que os valores nos pautam são banais, estão muito próximos aos desejos egoicos, sempre mais inflacionados. Vivemos em uma sociedade que se curva ao indivíduo. No modelo social que vivemos, a escola é ineficiente em seu papel (qual é mesmo o papel da escola? Não é, por certo pajear meninos e meninas para que não façam idiotices copiadas da internet) e desnecessária. 

A continuarmos assim, minando a consciência social, inflando-a de desejos egoicos, o investimento em cadeias são deprimentes. Nas escolas basta inserir câmeras de segurança. Nossos alunos agradecem a contribuição para a próxima performance.



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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou VACUOS MUNDI. E-mail:cdomimgosfernandes@uol.com.br



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