quarta-feira, 17 de julho de 2013

Evangelho de gozo eterno segundo Feli'c-ianus, por Claudio Domingos Fernandes

Ontem recebi os amigos em casa. Foi uma noite agradável em que discorremos, entre uma taça e outra de vinho, saboreando o caldo de mandioca que a comadre preparou, sobre coisas sérias tornadas fúteis e coisas fúteis tornadas quase sérias. 

A certa altura, já quase no desfecho da noitada, o tema da verdade veio à baila. Eu então, grosseiro que sou, para exemplificar minha defesa: a verdade não é para ser dita às claras, mas revelada. Usei um exemplo assaz vulgar. De fato, penso que a verdade não se diz com todas as palavras, mas de forma que a pessoa a encontre. Pois, re-velar, segue a mesma lógica de re-tomar, considerar uma outra vez, ou re-tornar, que é voltar sobre algo novamente, indicando repetição. A verdade como a queremos, mas impossível de ser, seria um des-velar, tirar o véu do que está velado. Mas quando tiramos o véu do que está velado, o que está velado esvanece. A verdade é pois, um re-velar, colocar sobre o que está velado um segundo véu. 

O exemplo que usei para exemplificar essa confusão semântica, foi o Nazareno, que nunca falou a verdade diretamente, mas sempre em parábolas, é recorrente na boca do Galileu a expressão “é como que”. O compadre então lembrou-nos, “mas ele disse: “Eu sou a Verdade””. “Mas também disse”, retruquei, “Eu sou o caminho (véu) que leva ao pai”. Jesus, Verdade, re-vela, encobre sobre si, o Pai. Eu não vou reporta aqui a grosseria que usei para dar maior sentido à minha defesa de que a verdade não é para ser dita às claras, mas paragonada, dita de forma velada. O fato é que fui dormir constrito com minha grosseria ao fim de uma noite em que tudo era agradável em companhia de pessoas que dão sentido a minha vida.

Acordo de cabeça cheia e eis que encontro Leopoldo, um velho fantasma de família que diz ter sido conselheiro de Dom Pedro II, sentado em minha poltrona com uns manuscritos na mão. “Meu caro”, disse ele, “você e suas atrapalhadas. Que coisa feia, dizer aquilo com religiosa no recinto!” Depois da reprimenda, o bonachão estendeu-me uns deteriorados pergaminhos: “são verdadeiras relíquias, remontam a tempos imemoriais” ... Sabendo que eu não entenderia bolhufas, Leopoldo deu aquela sua risada sacana. E depois de troçar alguns instantes com minha incompetência para entender aqueles rabiscos, ele deu-me um outro texto, “não te preocupes, meu caro, um velho amigo meu, conhecedor das línguas mães, traduziu-me o texto”. Tomo a tradução de suas mãos e leio atônito enquanto Leopoldo, muito próprio de seu feitio, desaparece com os originais em pergaminho, antes que eu lhe possa fazer qualquer pergunta. 

Naquele tempo, Ambi-Erectus passava ensinando a verdade do gozo eterno, quando um perguntou-lhe “o que é o gozo eterno?". Ambi-Erectus respondeu: “Dentre vos há aqueles que jogam um jogo que os antigos mais antigos chamam ‘troca-troca’, há dentre vós também um jogo que se conhece por ‘fio terra’. O gozo eterno é como que os dois jogos, disse Ambi-Erectus. Então, um outro, entre gracejo, objetou: “um dedo só, é isso o gozo eterno? Não é, por ventura, tão pouco?” Ambi-Erectus fulminou-o com o olhar dizendo-lhe: Acaso desconheces as proporções de Ab-Erectus, o que tudo ordena? Um outro então perguntou: “Como faço para alcançar o gozo eterno?” Ambi-Erectus ensinou-lhe os segredos: “siga para onde aponta meu dedo, e encontrarás o que procura”. Ambi-Erectus apontou o dedo e muitos se extasiaram. Um de nome Feli’c-Ianus, o mais efusivo, ante o prodígio de Ambi-erectus, suspirou: “Que o dedo de Ab-Erectus, pouse sobre mim...”

Devo lembrar-vos que a tradução é de Issac Ben Abbran, nascido por volta de 2000aC. Assim me garantiu Leopoldo, enquanto desaparecia. 

Claudio Domingos Fernandes



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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou VACUOS MUNDI. E-mail:cdomimgosfernandes@uol.com.br


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