quinta-feira, 25 de julho de 2013

Devaneio incluso, por Claudio Domingos Fernandes

Você marca a consulta para as nove horas. E chega, como pedem, às oito e meia. Faltando três ou quatro minutos para as nove a recepcionista avisa: 

“O doutor FP deve se atrasar um pouco! Ele deve estar chegando”. 

Uma hora e meia depois o sujeito chega fala um bom dia/mea culpa, entra pro consultório e se passam eternos quinze minutos para chamar o primeiro paciente. Sou apenas o nono, faço a conta: “se cada consulta durar dez minutos, uma hora e meia é o mínimo que devo esperar, meio dia estou liberado!” 

Vinte minutos depois: 

“Senhor ...” 

Isso mesmo, em vinte minutos exatos o Dr FP atendeu nada mais nada menos que oito pessoas. Entro. 

“Pois não!”

“Dr eu tenho sentido uma queimação no estomago e ...” 

“Está aqui”, estendendo-me um receituário antes mesmo de eu terminar a fala, “tome um comprimido toda manhã, se alimente de poucas porções ao longo do dia e procure mastigar devagar e evite falar durante as refeições” ... 

“Senhor ...” 

A hora e meia que estou aqui esperando para passar por um outro médico, é eu posso me dar ao luxo de procurar outro médico, quando não sinto confiança em médicos como o Dr FP. Mas, sem generalizar, querendo fazê-lo, parece haver um modus operandi peculiar na prática médica. Então a hora e meia que estou a esperar me conduz a pensar sem compromisso. Minha lembrança volta a dias seguintes à eleição de Lula para o primeiro mandato. Estou na sala dos professores, e uma ilustrada me sai com esta: 

“Um Silva no poder? Não fica cinco meses!” 

Ficou oito e elegeu um “poste”. Pois bem, a dona Dilma tá dando o que falar: 

“Onde já se viu, com tantos médicos no Brasil, querer importa médico. Porque ela não vai se tratar no SUS?” 

O SUS é algo que sei que existe, mas do qual nunca fiz uso. Mas se é público não presta, não funciona. O que funciona é o privado, este em que você espera duas horas folheando revistas de fofoca ou Veja, que é quase a mesma coisa, a outra ao menos te informa que é de fofoca. E o pensamento voa do Silva, que não tinha competência para o poder, e que passou oito anos à frente do cargo mais importante da nação e fez seu sucessor, e vive como uma sombra a assustar os Cardosos, os Marinhos os Civitas, os Frias da vida, porque, sim!, estes sabem fazer política. Correndo os olhos por uma página amarela de três meses atrás, alguém atribui ao Silva um ato fundador da política: 

“A corrupção é produto do Governo Lula!”

Vi Lula sentado à direita, ou melhor, à esquerda, ou melhor ainda, no posto do Pai Celeste: 

“Que se faça a relação mais espúrias entre os homens, e que dela nasça a corrupção!” 

Acho que Maquiavel e Lord Action à sombra da Árvore da Sabedoria devem ter corado com a assertiva do nobre politólogo. Só a Veja dá crédito a determinados especialistas... O pensamento assim descompromissado só não chegou a conclusões porque a recepcionista avisou, duas horas depois: 

“O DR FP Filho pede desculpas, mas ele teve que atender uma emergência e não virá hoje. Vou está agendando para daqui dois meses as vossas consultas. Tudo Bem?!”

“Paciência”, penso, “fazer o quê?” ... 

Estou num bar tomando uma cerveja, a televisão ligada num canal que eu não soube identificar, sobre a manifestação dos médicos na Paulista. Quem eu vejo bradando palavras de ordem e segurando cartazes ferozes contra a dona Dilma os FP, pai e Filho. Eu começo a ter simpatia por essa senhora.

Claudio Domingos Fernandes


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Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou VACUOS MUNDI. E-mail:cdomimgosfernandes@uol.com.br

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Balcão da Arte 
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