segunda-feira, 3 de junho de 2013

Meus filhos são mais maduros que eu, por Claudio Domingos Fernandes



Eu tenho dois filhos, um de sete, Victor, e outro de três, Tales. O mais novo gosta muito de brincar com água, é quase orgástico sua relação com este elemento. Mas brincar com água em sua idade é arriscado e produz muita confusão com a mãe. E quando o mundo parece ter silenciado, é porque Tales está molhando a casa, principalmente a sala. Tales sabe que eu e a mãe não gostamos que ele brinque com água, e sabe que nós brigamos com ele. Por isso, diferentemente de quando ele brinca com seus brinquedos ou os do irmão, seus preferidos, ele, quando brinca com água, oculta-se num silêncio extraordinário. Depois, Tales sabe aproveitar das situações. Dias deste, estou eu no quintal mexendo com serra tico-tico, furadeira, martelos e coisa e tal, a mãe havia saído, o irmão, que geralmente, quando não pactua com seus jogos, o denuncia, estava na escola. Então, estou serrando, furando, martelando, eme esqueço por alguns minutos de Tales, que brincava próximo de mim com um martelo e um alicate – que a mãe não fique sabendo disto. “Papai está fazendo barulho, não vai me ouvir”, deve ter pensado Tales. E de fato, por alguns minutos, empenhado no que eu fazia, abandonei Tales a ele próprio. Mas de repente percebo Tales carregando um rodo e um pano de chão. Deixo-o ir, e o acompanho. A sala é uma lagoa. Sobre o sofá todo molhado uma vasilha plástica, macarrões parafuso, uma banana e uma bisnaga esfarelada. A reação foi imediata: dou-lhe uma bronca,coloco-o de castigo em seu quarto. Tales chora como se estivesse sendo espancado e diz furioso: “Eu vou imbora desta casa, pra nunca mais”. Eu também furioso: explico pra ele, indagando: “Você sabe que a mamãe não gosta que você brinque com água, não sabe?” e completo: “olha a confusão que você fez”. No castigo Tales dormiu. Eu ajustei a sala, recolhi o equipamento, ajustei abagunça no quintal... Quando fomos buscar o Victor na escola, no caminho, Tales me perguntou, afirmando: “O papai brigou comigo!?” “Porque você fez bagunça na sala”, expliquei. “É,eu brinquei com água, a mamãe não gosta!”. Tales sabia o porquê eu havia brigado com ele, sabia o motivo. Mas Tales não entende porque eu tenho que brigar com ele. Pois é isto, uma coisa é saber o que está fazendo, outra é entender o que está fazendo e as consequências do que se está fazendo.

Conto outra história. Eu bebo desde os 15 anos e comecei na escola. A mãe de uma amiga produzia licor de jabuticaba e esta amiga uma certa vez levou-nos do licor produzido pela mãe. Tornou-se um ritual às sextas feiras no intervalo nos reunirmos para tomar do licor. Naquela época não existia toda essa campanha que hoje existe contra o consumo de álcool. Pelo contrário éramos estimulados. Mas era só um licor, e uma bicadinha apenas, não é que minha amiga nos levasse um litro de licor, era num vidrinho pequeno de xarope.Meu pai, que presenciei bebendo apenas quando adulto e em apenas duas ocasiões tinha uma armazém-bar, e para compensar a gentileza da amiga, certa feita subtrai do negócio da família um litro de conhaque. Foi meu primeiro porre,seguido de boas vassouradas de minha mãe, que teve que me buscar na escola...Hoje, por circunstâncias legais sei e entendo que bebida e volante não combinam. Mas durante muito tempo, esta associação foi feita, lembro-me de uma campanha publicitária que relacionava o poder da bebida à potência de uma Ferrari e dai à potência sexual: Era um sujeito dando uns ‘amassos’ numa garota numa Ferrari,o locutor pronunciava o nome da bebida e completava: “Sinta o poder em suas mãos”. A bebida e o cigarro sempre estiveram associados a esta noção de poder econômico, político e sexual. E as propagandas sempre povoavam nossa imaginação com carros, mulheres, cigarros e bebidas. Pois bem, todos nós sabemos que bebere dirigir não se conjugam, mas sabemos, também, como Tales, aproveitar as circunstâncias: o barulho da serra, o envolvimento do pai na tarefa de Tales, é a nossa certeza de que a fiscalização é ineficiente. Hoje, as imagens de poder político, econômico ou orgistico, já não nos fazem sentido, e não as levamos em conta para bebermos, mas para termos assunto enquanto bebemos. Beber e fumar é um hábito que nos foi incutido. Assim, quando eu e meus amigos nos encontramos,entre uma conversa e outra, três, quatro taças de vinho cada qual consome. E depois, pegamos nossos carros tranquilamente.

Uma vez que algo se torna hábito, esquecemos porque o iniciamos (os encontros de família,a propaganda, a disponibilidade em toda festa de paróquia etc.). Hoje, bebemos por beber, porque entre nós é hábito. Mas como eu disse, diferentemente de Tales, eu sei e entendo porque não devo ter este ou aquele comportamento, como beber e dirigir. Por isso, abdiquei de dirigir.

É a capacidade de entender plenamente o que se faz e a capacidade de previsibilidade das consequências de uma ação, e não apenas saber ou ter consciência do que se está fazendo que conduz à maturidade, e a maturidade não se dá num passe simples de mudança de idade.

Às vezes eu fico abismado com o Victor, que tem apenas sete anos, mas já defende alguns valores (como a existência de Deus) com alguma segurança. De vez em quando ele me corrige, “pai você falou palavrão pro Tales!”, “pai você já bebeu dois copos!”, “pai você deixou a torneira aberta!”. E nestes dias: “Você quer que meu irmão morra?, raivoso. “Porque?” Perguntei? “Você deixou a faca em cima do sofá, você quer que meu irmão a pegue e se machuque?” “Oque você fez?”, perguntei. “Coloquei na pia!”. “Fez bem!”. “Não vai nem dizer obrigado por você não ir pra cadeia?” Nesta minha relação com Victor quem tem mais maturidade? Quem tem crianças como eu, e com a criatividade que elas têm – estes dias Tales me pediu martelo e prego porque ele tinha que me construir uma cadeira moderna: “o que será que ele entende por moderno?” – precisa estar sempre atento. Mas eu tenho o mal habito de deixar coisas largadas pela casa. É um hábito que me proponho a mudar desde o primeiro beijo em Ione.

Mas, nós só começamos a modificar um hábito se tomamos consciência dele. Às vezes é preciso mais que isto: é preciso buscar suas origens o como e o que o motivou. Pois há hábitos que são mecânicos. Mas há hábitos que carregam força emotiva,paixões, sentimentos, e promovem visão de mundo, etc. A dificuldade de se produzir um hábito novo é que diferentemente do antigo, que se configurou inconscientemente e funda suas raízes no inconsciente, o novo hábito parte de uma decisão de aniquilar o antigo, e uma decisão é um ato consciente. A consciência é algo que precisa estar sempre alerta, uma bobeira, e ela sucumbe à inconsciência. É preciso sempre manter firme o lema: “só por hoje!”. Mas o hábito antigo não se anula completamente, e quando menos se espera, tende a se manifestar novamente. Às vezes com força avassaladora.

Todo este enredo é para dizer que: sem entendermos quais forças ideológicas e quais violências simbólicas produzimos lá atrás, e que estruturam o imaginário, o inconsciente e o comportamento juvenil de hoje, não daremos uma resposta satisfatória à crescente onda de violência que permeia nossa sociedade, violência que não é exclusividade do jovem.

Em casos complexos, como esse da criminalidade juvenil, não podemos agir como médicos que clinicam pelo sintoma e não pela causa. Exemplo: Meu amigo tinha dores de estomago. Foi ao médico. Este perguntou se ele bebia, ele disse que sim,perguntou sobre sua alimentação, ele a explanou. O médico cortou a bebida e o torresmo, sem pedir nenhum exame e indicou um remédio para aliviar a dor. Meu amigo seguiu a receita. Seis meses depois, procurando um especialista, sua dornão tinha a ver com a bebida e com o torresmo que a agravavam, mas não eram a causa. Demorasse mais tempo a procurar o especialista, era metástase.

Os jovens são sem dúvida, como meus filhos Victor e Tales, capazes de saber e, em alguns casos, entender o que fazem, e alguns são maduros o suficiente para responder por seus atos. Neste caso eu acho tranquilo ajuizá-los criminalmente.Mas tal solução, generalizada, é um paliativo, e daqui a cinco anos estaremos novamente discutindo a redução da maioridade penal para 14, 12 anos, porque queremos a mágica: a solução rápida e emergencial; e não a árdua tarefa de modificar as estruturas sócio econômicas e educacional que tornam cada vez mais latente a violência humana, e sendo o jovem um humano entre humanos não poderia ficar isento de sua influência.



Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou VACUOS MUNDI. E-mail:cdomimgosfernandes@uol.com.br

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