terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Adeus, por Antônio Nicodemo.
















Poderia ter dado certo.

A questão é que nosso tempo não é o do outro.

Por mais que a gente queira ou tente, os ponteiros nunca batem.

Ela tinha sumido dos seus e assumido pra si a necessidade da espera. 

Era quase um posto ambulante, sem horário na agenda, sem tempo vago, crianças e senhoras tossindo e chorando no corredor, esperando pra medir a pressão e a temperatura antes de se receitar alguns dias de diclofenaco ou amoxicilina. Mas sem contar quinze dias pro retorno.

Caso não passasse, talvez teria de refazer a chapa dos pulmões ou coisa do tipo.

Lá estava ela. Doente de espera.

Desde que seus dias começaram a nascer de cesárea, ela tinha se entregue ao maldito leito do quase.

A procura de uma unidade de tratamento intensivo para as dores que seu corpo ganhara desde a magnífica ideia de se entregar, pulou de cômodo a cômodo da casa, com café, cigarro, e o box da maldita série que ela não consegue passar da segunda temporada.

Era o vigésimo primeiro dia desde a última quinta feira.

Acontece que as coisas crescem, se multiplicam, ganham força, intensidade, vontade, peso...

Estava sozinha novamente, e tinha medo.

Ela só queria ser o demônio de alguém.

Nem tudo está ao nosso alcance pequena, perceba, por mais doloroso que te seja.

Do que adianta ter um acúmulo de insônia para aquilo que talvez só esteja acordado pra você?

Deixa esse medo de lado.

O bom do medo é que ele faz coisas que até Deus duvida, e como você anda dependendo da vontade de Deus para as coisas...

O guardinha já tinha passado três vezes na rua, o corujão já subia os créditos pra em seguida começar o tele curso de ilustração e a única coisa que ela tinha conseguido era um esboço.

Não guardava mágoa, só queria uma forma rápida pra alimentar a cria dos novos dragões, precisava de algo instantâneo, mais rápido que miojo de preferência.

Ela continuava apaixonada.

Gostava de fechar os olhos e lembrar o tom da risada, os apelidos, lembrar como era bom trocar ideias e besteiras sem sentir vergonha, sem medo.

O bom, é que ela era capaz de fazer coisas que até Deus duvida, e como ela queria fugir da dependência de Deus, precisava ilustrar um motivo concreto antes da subida dos créditos.

Antônio Nicodemo



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Antônio Nicodemo
É ator e iniciou sua pesquisa como dramaturgo em 2004, aos dezessete anos, quando fundou a Cia Teatro da Neura, onde continua em pesquisa até hoje. Em 2011, iniciou suas experiências como diretor em A Menina da Cabeça de Bola (Prêmio Ensaiando Um Páis Melhor), e seguiu com a direção do novo espetáculo do grupo, O Velório (ProaC), onde também assina a dramaturgia. Atualmente, também mantém a página "Pra eu dormir" com contos, crônicas e pensamentos. Facebook: Antônio Lagreca Nicodemo. 

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Balcão da Arte 
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Um comentário:

  1. muito lindo!
    Parabens pela estrutura e conteudo de seu blog, Forte abraço Renato Artesanato em MDF

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