sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Quem acredita em bruxas?, por Ana Lúcia Merege


Os fãs de Harry Potter talvez não saibam que, durante muitos séculos, as pessoas acusadas de praticar magia foram combatidas, presas e até mortas. Isso aconteceu em vários países da Europa desde a Idade Média, chegando, mais tarde ao Brasil também. Para saber como tudo começou, é preciso voltar no tempo... Você vai fazer essa viagem de vassoura ou de imaginação mesmo?!

Desde que os humanos começaram a se organizar em grupos, lá na Pré-história, havia a crença em algum tipo de magia. Os praticantes – chamados feiticeiros, curandeiros ou xamãs – podiam ser temidos ou amados, mas quase sempre eram respeitados por seu poder.

Os povos da Antiguidade continuaram a praticar a magia. Em muitas delas, os magos eram também sacerdotes dedicados a um deus ou na uma deusa, como acontecida no Egito. Assírios, fenícios, gregos e romanos viviam num mundo em que rituais, sacrifícios e encantamentos eram práticas comuns.

Na Idade Média, as coisas mudaram. A Igreja Católica – que era muito próxima dos reis e tinha como missão fazer com que o maior número de pessoas acreditasse em um único Deus e seguisse os mandamentos do catolicismo -  começou a se sentir incomodada com as práticas de feitiçaria. Acreditava-se que a magia podia ser usada para praticar o mal e muitas leis foram criadas para evitar isso.

Mas, imagine! Àquela época não se tinha entendimento sobre muitos fenômenos naturais, então tinha gente sendo levada ao tribunal sob acusação de fazer cair geada no verão, algo que a meteorologia pode explicar, ou por lançar mau-olhado sobre o gado do vizinho, que, provavelmente, ia mal por conta de alguma doença.




Caça às Bruxas

No final do século 12, a Igreja Católica – com o apoio dos principais monarcas da Europa – tinha se organizado ainda mais para combater todos aqueles que considerava uma ameaça  à doutrina cristã. Criou tribunais que se reuniam durante algum tempo para investigar, julgar e punir os hereges – pessoas cujas crenças e opiniões contrariavam o catolicismo – e, também, acusados de outros tipos de crimes, incluindo, claro, os que envolviam a prática da magia.

No processo investigativo sempre eram feitas muitas perguntas e, por isso, essa prática da Igreja foi chamada de Inquisição (“inquirir” significa “perguntar”).

A primeira investigação começou na França, em 1184, mas logo depois outros países instalaram seus tribunais, e as coisas funcionaram de maneiras diferentes em cada um deles. Na Espanha e em Portugal, por exemplo, o Tribunal do Santo Ofício perseguiu, principalmente, os judeus e muçulmanos, obrigando muitos deles a se converter ao Cristianismo (ou, pelo menos, fingir).

Na Itália, o padre e cientista Giordano Bruno foi queimado no ano 1600, por defender pontos de vista considerados hereges. Galileu Galilei, na mesma época, só escapou da fogueira porque voltou atrás em sua afirmação (embora soubesse estar certo) de que a Terra girava em torno do Sol. Os processos por bruxaria mesmo foram poucos, crescendo a partir do século 16, quando a Igreja aumentou a sua desconfiança em relação a adivinhos e curandeiros.

Ganhava força a ideia de que as bruxas e os bruxos não apenas podiam fazer mal a outras pessoas, mas tinham um “pacto com as trevas”. Essas pessoas começaram a ser acusadas, entre outras coisas, de voar em vassouras, de transformar pessoas em animais e de promover reuniões em que invocavam espíritos maléficos.

A confissão dos praticantes de magia de que a Igreja estava certa em suas acusações era quase sempre obtida por tortura, enquanto a inocência era praticamente impossível de ser provada, exigindo testes absurdos como ficar vários minutos debaixo d’água ou segurar um ferro em brasa com as mãos.

Sabia que uma pessoa podia ser denunciada como bruxa simplesmente por não ir à igreja aos domingos, por ser aleijada ou – no caso das mulheres -, até mesmo, por ter sobrancelhas muito juntas ou pelo menos no queixo?

De um modo geral, houve mais mulheres do que homens entre os acusados de bruxaria. Em primeiro lugar, porque eram elas que mais entendiam de ervas e remédios caseiros, dos quais os inquisidores desconfiavam por achar que podiam ser poções usadas para o mal. Outra razão era porque a Igreja cristã na época afirmava que as mulheres eram mais fracas e maliciosas do que os homens. Dá para acreditar?!


Feitiçaria no Brasil Colonial

França, Portugal, Espanha, Alemanha e Inglaterra são países com muitas histórias sobre o combate à magia. Mas a Inquisição ultrapassou as fronteiras da Europa, chegando aos Estados Unidos, onde aconteceram prisões e mortes pelo mesmo motivo, e também ao Brasil.

Éramos ainda colônia de Portugal e a Inquisição por aqui ficou a cargo do Tribunal do Santo Ofício de Lisboa. Em três ocasiões, foi enviado um “visitador” encarregado de investigar o estado da fé: 1591, 1618 e no período compreendido entre 1763 e 1768, quando a Inquisição, que em Portugal foi extinta em 1821, já estava enfraquecida. Assim como na Europa, o alvo principal foram os hereges e os “cristãos-novos” – judeus convertidos ao catolicismo que eram acusados de manter as práticas de manter as práticas da antiga religião, como, por exemplo, tomar banho às sextas-feiras.

As acusações de bruxaria, por sua vez, baseavam-se, principalmente, na “magia popular” que incluía o uso de ervas, chás, benzeduras e objetos considerados enfeitiçados, como as figas, os amuletos e os saquinhos costurados comumente chamados “patuás”, que vem de tradição africana. Tudo isso era muito comum por aqui. Afinal de contas, as crenças trazidas pelos europeus haviam se misturado, primeiro às dos índios – alguns rituais descritos como sendo de bruxaria são, na verdade, práticas, herdadas de xamãs indígenas – e mais tarde, às dos escravos, muitos dos quais foram acusados de praticar “mandingas”, ou seja, feitiçaria, contra seus senhores.

Assim como na Europa, as denúncias contra os feiticeiros da colônia partiam de pessoas conhecidas, como vizinhos, amigos, e até parentes. Os interrogatórios começavam no Brasil, mas a sentença final era dada em Lisboa, às vezes depois de vários anos a primeira acusação. Até onde se sabe, não houve, entre os considerados culpados de feitiçaria no Brasil, nenhum condenado à morte na fogueira, como chegou a acontecer com os portugueses. No entanto, essas pessoas foram punidas com prisão, violência física, penas de exílio e de trabalhos forçados.


As “bruxas” de hoje em dia

A partir do século 18 a magia começou a perder a sua importância. As descobertas cientificas e as mudanças que elas trouxeram para a sociedade contribuíram para que nos distanciássemos cada vez mais das tradições antigas como parte de uma crença ou religião, e as leis modernas garantem que não sejam perseguidas por isso.

A própria ciência hoje em dia reconhece o valor de algumas tradições. Um bom exemplo são as plantas medicinais, que nunca deixaram de ser usadas e que, hoje são cada vez mais empregadas no tratamento de certas doenças, até mesmo na composição de remédios fabricados em laboratório. Prova de que nossas tataravós acusadas de bruxaria tinham algum conhecimento de que estavam fazendo...

E, mesmo que a gente não se dê conta, a magia popular de nossos antepassados ainda está por aí. É só olhar a nossa volta. Ou será que você não conhece ninguém que só vai ao futebol usando a sua meia da sorte?

Ana Lúcia Merege,
Biblioteca Nacional.

MEREGE, A. L. Quem acredita em bruxas?. Ciência Hoje das Crianças.RJ, outubro de 2011. p. 2-6.


---
Balcão da Arte 
Contato: balcaoarte@gmail.com 
Facebook: Balcão da Arte
Google Plus: Balcão da Arte

Nenhum comentário:

Postar um comentário