sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Zé Moraes e a política pessoal, por Sacolinha



Então foi assim que tudo aconteceu.

José Moraes tinha apenas 22 anos quando decidiu entrar na política e fazer diferente. Isso porque odiava ver as besteiras que os partidários cometiam. Parece que nada dava certo e o país não crescia.

A ideia ocorreu quando estava numa lotação e ouviu a conversa de dois sujeitos sobre o novo escândalo na política. Um deles disse:

- O pior é que vai ser sempre assim, entra um e sai outro e nada muda. Não chega um pra fazer diferente.

Fazer diferente. Essas palavras ficaram na sua cabeça:

Faz diferente, fazer diferente, fazer diferente, fazer diferente...

E ficou pensando em algo novo. Um desafio no seu caminho. Pensou tanto que, ao cair em si, já havia passado do ponto em que ia desembarcar. Quando desceu, viu que teria que andar uns 10 minutos para chegar ao local onde deveria saltar.

Começou a caminhar resignado. Na verdade, aqueles dez minutos de andança não significavam nada perto do desafio que tinha pela frente.

- Será?

Perguntou pra si mesmo, espantando o transeunte que passava ao seu lado. E começou a aceitar aquela súbita Idea de ser o político diferente.

Na casa da namorada, quase não abriu a boca, contrariando o jovem falador que sempre fora.
Em resposta às perguntas que lhe jogavam, só dizia:

- Nada não.

E passou todo o domingo assim, alheio às conversas dos sogros e cunhados, alheio ao beijo da companheira e alheio ao filme que ela alugara.

Na manhã do dia seguinte, José Moraes foi o primeiro aluno a chegar na universidade onde cursava jornalismo. Quando os portões se abriram, ele correu em direção à sala de apoio ao estudante que era coordenada pelos próprios alunos e tinha o objetivo de adquirir benefícios aos mesmos.

Ainda não havia ninguém, resolveu esperar, mas ficou nervoso quando tocou o sinal para o início da primeira aula.

- Vagabundos! Como é que vamos mudar as coisas desse jeito? Cadê vocês para irem à luta?

Correu até a livraria e verificou o preço do livro “O pensamento vivo de Che” que há muito via exposto na vitrina. Consultou a carteira; nada de dinheiro. Comprou no cartão mesmo.

Na sala, mal prestava atenção na fala do professor. Lia trecho das ideias do revolucionário Ernesto Che Guevara e ficava a imaginar como poderia colocá-las em prática nos dias atuais.

Dali pra frente ele só tinha um pensamento: fazer diferente. Entrar na política, ser um participante ativo, discutir, debater, argumentar e até brigar, se possível, para defender a vontade da maioria dos excluídos, dos sem tetos, sem terras, sem reforma agrária, dos sem saneamento básico, dos sem saúde, dos sem nada. Queria era trabalhar em prol dos mais humildes. E pra isso, estava disposto a tudo. Tanto que se filiou ao movimento estudantil e a um partido de esquerda. Começou a se envolver em ocupações e acampamentos de invasões.

Não estava para brincadeira. Mudava a cada dia. Vanessa já não sentia mais os carinhos intensos que recebia do namorado. As conversas não eram mais sobre o casamento e nem os futuros filhos do casal. José Moraes já não era mais o mesmo. E diante das várias mancadas que deu, Vanessa resolveu terminar o relacionamento de seis anos.

José achou melhor assim, não ia mesmo ter tempo para namorar. Dali pra frente tinha que se dedicar ao máximo para atingir o seu objetivo. Fazer diferente.

Em casa também mudou. Chegou a discutir diversas vezes com a irmã por ela estar assistindo às novelas.

- Poxa vida, desliga essa merda, c*****. Se fosse pelo menos o telejornal...

Diante do comportamento de revolução, os amigos de infância começaram a se afastar. Não acompanhavam o seu raciocínio. E os novos amigos, militantes de movimentos políticos e sociais, apelidaram-no de Zé. Era agora o Zé Moraes.

E quem não conhecia o Zé Moraes?

O jovem que aparecia em várias reportagens de manifestação a favor do passe livre para estudante, contra o aumento da passagem de ônibus, contra a privatização do metrô, contra tudo de ruim para o povo.

Ele peitou a polícia várias vezes, inclusive tem duas marcas roxas no corpo. Resultado de balas de borracha disparadas em meio a manifestações.

E não teve jeito. Saiu mesmo de casa. As brigas eram com todos agora, os pais não entendiam o seu ideal. Sendo assim, juntou as roupas e livros, e foi dividir um apartamento com um companheiro no centro de São Paulo.

Terminou o curso de jornalismo aos trancos e barrancos, pois não estudava para as provas e havia deixado de participar do grupo de estudo.

Era ano de eleição, mas cedo demais para se candidatar, então apoiou ativamente dois candidatos do seu partido, um vereador e um prefeito.

Foi às portas, passou de casa em casa, subiu nos caminhões e fez discurso bonito, cheio de indignação e verdades, participou de dezenas de reuniões, carregou bandeiras e entregou panfletos. Tudo em prol da mudança. No fim, o prefeito foi eleito, mas o vereador não atingiu os votos válidos. Zé Moraes ficou contente, no campo majoritário conseguiu eleger o homem.

Foi convidado a assumir a Secretaria da Juventude, e isso não havia negociado em momento algum. Mas não deixou de aceitar, era mais um passo para o seu crescimento.

Pediu demissão no seu antigo emprego e, no primeiro dia útil do ano, assumiu a nova cadeira.

Começou com cortes.  Não por esse ou aquele pertencer à administração anterior, mas por saber que ninguém ali trabalhava. Antes, aquilo era um verdadeiro cabide de empregos. Filho de tal vereador que apoiou o projeto tal, mas pra isso pediu uma vaga para o seu filho. Coisas de política. Mas com Zé Moraes isso iria mudar, afina, ele veio pra fazer diferente.

Devido às demissões, os primeiros dias foram turbulentos na secretaria. Após esse pesadelo, começou a pensar apenas nos projetos.

***

Dois anos se passaram e, no congresso estadual, o balanço do partido político deu nota 10 para a atuação da secretaria de Zé Moraes. Foi a partir daí que ele começou a pensar seriamente em sair candidato a deputado estadual na eleição seguinte. Pra isso, já contava com bastantes aliados, tanto do partido quando da sociedade civil organizada.

Começou então a se articular.

Nas prévias do seu partido, a sua candidatura foi aceita quase com a maioria absoluta de votos. Era agora pré-candidato. Mais um degrau vencido, pois sabia que não era fácil, antes mesmo de ser aceito pelo povo, tinha que passar pelo crivo dos companheiros do partido, e ali a briga era feia. Cobra comendo cobra. Muita articulação e argumentos eram o que contava.
O próximo passo foi, no ano de eleição, pedir afastamento do cargo que ocupava na prefeitura. Tarefa cumprida no mês de abril. Aí começou a angariar fundos para a sua campanha.

Logo de início, comprometeu o dinheiro que havia em sua conta bancária, não ia depender terceiros para isso, e sabia que grana em época de campanha eleitoral é questão de negociação política.

Ele estava convicto de sua escolha, desejava com todas as forças assumir um cargo na Assembleia Legislativa e mostrar ao povo que tinha alguém por eles. E para os deputados existentes, iria dar uma aula de política digna. Ia mesmo fazer acontecer.

Acreditava nisso, e muitos viram que Zé Moraes era verdadeiro. Ia fazer diferente.

***

No mês de julho é que liberaram a campanha eleitoral. A partir daquele ano estava proibido showmício, cartazes, outdoors, bonés e camisetas estampadas com o nome de qualquer candidato. Mas Zé Moraes não perdeu muito com isso. Gostava do corpo a corpo, e tinha fé que assim iria vencer.

Numa reunião do partido, deu risada quando ficou sabendo de alguns candidatos para aquela eleição; um músico que cantou forró a vida toda porque não sabia fazer outra coisa e um homossexual de 70 anos, estilista e apresentador de programa de televisão desses que passam no período da tarde e que ridicularizam o povo.

Esses dois nunca, nem uma vez sequer, subiram numa plenária de câmera municipal. Outros candidatos também arrancaram risos de Zé Moraes; um ex-prefeito da cidade de São Paulo que foi acusado várias vezes de lavagem de dinheiro e chegou a ir preso. E dois outros que estiveram envolvidos no maior escândalo da história do Brasil. Sem contar outras dezenas de candidatos pequenos partidos que nunca vira e nem ouvira falar. Não tinham envolvimento político. Zé Moraes tinha, e cada dia de campanha via que suas chances eram grandes.

***

Véspera de eleição. Ele se esgotou. Foram três meses de andanças, conversas, passeatas, reuniões em bairros, cansaço, pão com mortadela e água, discussão, conscientização popular, entrevistas, elaboração de plano de governo, composição de possível assessoria... e finalmente chegara o dia. Estava feliz. Nada de promessas, compra de votos e cestas básicas. Tinha a plena consciência de que fez uma campanha limpa e honesta.

Votou na parte da manhã, passou em algumas escolas para cumprimentar amigos e eleitores. Almoçou com companheiros partidários e de tarde foi para o diretório do partido, onde continuou a noite toda aguardando o resultado das eleições.

Às 11 da noite, começaram a aparecer os primeiros políticos eleitos do estado de São Paulo.
A uma da manhã um site na internet dera o resultado completo da eleição estadual. O nome de Zé Moraes não constava na lista de deputados eleitos.

Aquilo foi mais que uma facada na barriga. Não podia esperar, a hora era agora, nada de próxima eleição. Ele estava ali, vivo, com desejo mortal de fazer diferente. Mas algo dera errado e não fora escolhido para representar o povo.

O que doeu mais foi ver que todos aqueles candidatos medíocres e corruptos foram eleitos. Ouviu na TV a fala do deputado homossexual.

O repórter perguntou qual seria a primeira coisa que ele iria fazer como deputado. A resposta arrancou lágrimas dos olhos de Zé Moraes.

- Não sei, meu bem. Primeiro, eu quero ser apresentado à minha sala, à minha mesa, quero conhecer os móveis que vão compor meu ambiente de trabalho. Não tenho projetos, não cresci lá dentro, vou ter de aprender tudo.

E o repórter insistiu numa nova pergunta, a qual o deputado respondeu:

- Não tenho sensação nenhuma. Já sou uma vedete. Já tenho fama há muito tempo, pra mim é só um emprego a mais.

O mais bem votado fora o ex-prefeito da cidade, com o maior número de acusações de desvio de dinheiro.

Naquele momento, Zé Moraes nem pensou no que ia falar:

- Um povo que ele esses canalhas tem é que sofrer mesmo.

No dia seguinte, em reunião com alguns partidários para discutir e analisar as eleições, ele ficou sabendo sobre muitos atos de corrupção dentro do próprio partido, o que diretamente prejudicou a sua eleição. Irritou-se, resolveu tirar satisfações e, se fosse verdade, levaria a público, porque era homem digno.

Arrumou encrenca e se envolveu em briga física com os colegas de partido. Ameaçaram-no de morte.

A partir do ocorrido, Zé Moraes ficou perplexo e perdeu as esperanças. Passou um dia inteiro dentro do apartamento, refletindo sobre a sua militância.

Envolveu-se em diversos movimentos sociais, políticos e estudantis. Filiou-se a um partido em que acreditava. Passou muita fome, necessidades e várias vezes ficou doente em congressos e bienais pelos estados do Brasil. Lembrou-se das viagens que fazia dentro de ônibus fechado e  cheio de jovens fumando maconha. Ele passava mal, era a o único careta  da turma. Quantas vezes não fora criticado por isso.

Largou família, namorada, amigos antigos, deixou de lado a profissão de jornalista, entregou panfletos de conscientização, andou de sol a sol.  Enfim, viveu pela militância, pra fazer diferente, e no fim, acabou sendo traído, pelo povo e pelos companheiros.

Concluiu que o país estava sem rumo mesmo, que tudo estava perdido e não tinha mais jeito. Então resolveu fazer uma política pessoal; se desfez de tudo.

Juntou suas decepções e saiu mundo afora.

Zé Moraes começou a fumar maconha. Virou hippie. Quem passa pelas praias pode vê-lo, com cabelo grande e barbudo, vendendo pulseiras e artigos confeccionados por ele mesmo.

Outubro de 2006.

Sacolinha é o psedônimo de Ademiro Alves de Sousa, nascido em 09 de agosto de 1983 na cidade de São Paulo (SP). Filho de Maria Natalina Alves e neto de Geralda Aves de Sousa, ambas do município de Chapada do Norte, em Minas Gerais. Casado com a professora e historiadora Landy Freitas, com quem teve uma filha de nome Alanda Alves de Freitas. Sua infância e adolescência foram vividas na Cidade Líder, bairro da Zona Leste Paulistana, mas passou a morar em Suzano (SP) em 1998 aos 16 anos.

SACOLINHA. Manteiga de Cacau. SP: Editora Ilustra, 2012.


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