terça-feira, 4 de setembro de 2012

Palhaços, por Claudio Domingos Fernandes

No sábado tive o prazer de acompanhar alguns amigos ao teatro. Fomos assistir no Galpão do Folias ao espetáculo Palhaços de Timoncheco Whebi, com Dagoberto Feliz e Danilo Grangheia e Direção de Gabriel Carmona.

Palhaços retrata os bastidores de um circo, especificamente o camarim de um palhaço, este espaço é invadido por um espectador – um vendedor de sapatos, que quando criança desejou companhar um Circo que passara por sua cidade, mas o pai o impedira com uma surra (lembrei-me de meu texto vara de marmelo). O encontro deste dois seres coloca diante de nós – palhaços de todos os matizes – a questão sobre a arte e o artista.

"Para que serve o artista?" pergunta Gabriel Carmona no manifesto que apresenta o espetáculo. E se a arte é a escolha de um olhar, um ponto de vista, sobre um mundo de acontecimentos e sensações, como ele responde no corpo do manifesto, o artista não é outra coisa que um caleidoscópio, multifacetando a realidade, ante nosso olhar.

A questão do artista e de seu público fica, então, patente no desenrolar da trama em que o palhaço “vai desmontando os sonhos mais puros e os desejos mais imundos de seu fã”.

O artista só é artista porque não sabe fazer outra coisa senão arte. Ao mesmo tempo ser artista é apenas uma condição, como ser vendedor de sapatos ou espectador de um espetáculo são apenas condições, a qualquer momento podemos assumir o papel um do outro e se encontrar e se confundir neles. 

No retorno, ainda reverberando o mundo de inquietações que me suscitaram o espetáculo, o Cidão me lembrou um discurso sobre o artista. Disse ele que alguém afirmou não ser o artista um trabalhador, porque o artista não produz riquezas. Mas o trabalhador também não produz riquezas, o trabalhador apenas produz produtos com os quais não mantem senão o desejo de consumo enquanto apenas se consome. A riqueza não lhe pertence. O artista não é trabalhador não porque não produz, mas porque seu produto não é consumível. Eu não posso apenas consumir a obra de Timoncheco, lendo-a ou fluindo-a em uma montagem. Ela me inquieta, me provoca, diz algo de mim. 

E se a arte é este provocar o olhar de si, o artista produz provocações; é o pro-vocador. E aquilo que Carmona coloca como uma incerteza ou possibilidade: “Talvez a arte seja aquele momento em que podemos olhar as coisas de maneira diferente, experimentar outras conclusões e sentimentos sobre os mesmos fatos” eu acredito ser o próprio da arte. Neste sentido, o artista está na condição do trabalhador: produz, mas não riquezas. Esta não lhe pertence. Por isso, não se pode esperar viver da arte (a segunda sessão terá menos espectadores que a primeira). O artista, no entanto, se coloca, ao mesmo tempo, sobre outra condição, seu produto não é consumível, porque esta é a grandeza de uma obra de arte: perdurar provocativa para além de seu tempo-espaço. A arte não é o produto, a tela pronta, o espetáculo apresentado, a escultura exposta, o livro editado etc. É o que aguça o olhar, amplia a capacidade de reflexão, dá uma outra dimensão ao ser humano, esvazia-o de atributos, desconcerta-o, dá-lhe a possibilidade de se reinventar e fugir aos determinismos de todos os gêneros num olhar retro-intro- expectivo. O artista não se sustenta com sua arte, sua arte o eterniza. Timoncheco Whebi é atualíssimo.


Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou VACUOS MUNDI. E-mail:cdomimgosfernandes@uol.com.br

---
Balcão da Arte 
Contato: balcaoarte@gmail.com 
Facebook: Balcão da Arte
Google Plus: Balcão da Arte

Nenhum comentário:

Postar um comentário