quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ideológico, por Claudio Domingos Fernandes


“Dois homens sentados em torno de um problema buscam uma solução. Três homens sentados em torno de um problema fazem política”, dizia minha avó. (Rodner Lucio)



Para o compadre Marco Maida que me colocou a questão


Vó estava na cozinha e picava couve para o almoço. No fogão o toucinho estourava. Tio Anastácio, entrou, pegou um copo: 

“Cadê o bule? Tem queijo?” É do armazém do Galego?”

“Menino”, ralhou vó, “o almoço tá quase pronto, invés de ficar me rodeando como um Judas na forca, vai ali na venda, traz lá um punhado de farinha e ovos”.

“Vou já, como um pedaço de queijo e vou... Entro pra política! O que a senhora acha?” 

Vó continuou picando couve. Tio Anastácio tomou o café, comeu o queijo saiu. 

“Vó”, perguntei, “o que é política?” 

“É uma arte meu filho... a mais bela das artes... é também uma praga..., a mais terrível das pragas”. 

Aquilo ficou burburindo em mim o almoço todo... 

“Você não é dado a política Anastácio”, disse vó, levantando-se para tirar a mesa. 

“Política?”, perguntou mãe, recolhendo os pratos “que novidade é está?”. 

“Eu vou entrar pra política”, respondeu tio, meio encabulado. 

Pai riu de uma piada, tia Alzira ruborizou-se como que comera pimenta, precisou tomar água. 

“Esta é boa!”, continuo pai a gargalhadas. 

“Pai”, perguntei, “que é política?” 

“É a forma de ganhar a vida fácil meu filho”, respondeu pai, ainda rindo. 

“Não meu pequeno”, interveio mãe, “é o desejo de mudar as coisas, porque nunca se está contente com as coisas”. 

“É sem-vergonhice” emendou, tia Alzira, trazendo as xícaras. 

“É a coragem de lutar por um mundo melhor, onde todos sejam respeitados, tenham vida digna e tenham seus direitos garantidos”, discursou tio Anastácio. 

Pai riu mais ainda. 

“É tudo isto meu filho”, disse vó, servindo café a tio Anastácio e pai; “é também o que leva, em nome da verdade, a sustentar a mentira como verdade e a verdade como mentira; é o que leva os homens à guerra e à paz, a ser inimigos em uma jornada e aliados em outra, é o que torna o convívio humano possível e também impossível; é pois a arte de construir o humano no homem e o perene risco de, para isto, destruir o próprio homem, sem o qual o humano não é possível...” 

Tio Anastácio entrou para a política, nunca candidatou-se a nada, e jamais filiou-se a um partido. Talvez eu não tenha aprendido nada com vó que era iletrada. Tornei-me ideológico.


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Claudio Domingos Fernandes 
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou VACUOS MUNDI. E-mail:cdomimgosfernandes@uol.com.br

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